Eu ria de nervoso

diante do rio que, furioso,

que arrastava meus sonhos

para algum lugar

medonho.


Foram anos de trabalho

carregados pelo mar de lama.


Eu ria,

porque chorar

diante das crianças

não podia.


Foram anos de trabalho

carregados pelo mar de lama.


Eu ria,

porque amargar

a desesperança

doía.


Foram anos de trabalho

carregados pelo mar de lama.


Eu ali, paralisado, ria

para não me derramar.

Enquanto o rio furioso seguia

rumo ao mar.


#GiovaniMiguez

#sigaapoesia



Lucas Prates / Hoje em Dia


Na aventura do tempo

o relógio é uma tecnologia

de aprisionamento,

uma violação do tempo

real.


Nessa estrutura de tempo

sofremos estranha arritmia,

perdendo a força do momento

para a doença do tempo

cultural.


Sem relógio, o tempo corre

no ritmo da vida, da natureza,

dos ciclos dos planetas,

do nascer, do crescer

e do morrer.


Sem a experiência do tempo real,

do tempo que é puro tempo-ritmo,

perdemo-nos na ilusão da mente

que corrompe o tempo

natural.


Assim, resta ao ser-no-tempo

que somos, o tempo da atenção,

aquele tempo onde o Eu

conhece na prática da meditação,

do tempo do Ser.


08.01.2022





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#giovanimiguez

#sigaapoesia


a Ana De Nigris


A vida é uma obra em curso. Uma obra aberta, sempre inacabada e frequentemente insatisfatória porque o enredo nem sempre está sob o nosso controle. Imagina então arrogar-se no controle de uma obra que nos transcende. Ontem refleti muito sobre minha paternidade e queria dividir com você.


No fundo, todos nós humanos, vivemos rascunhando a vida que queremos; a nossa obra, a única que no fim interessa. Alguns chegam a concretizar nela alguma arte, mas a maioria parte sem conseguir. Deixamos nosso espólio de rascunhos para que os nossos os decifre e, raramente, dele se libertem. Talvez comigo não seja diferente. Por isso, debrucei-me sobre a pena com tanta avidez e visceralidade.


Sim, querida amiga-mãe, são dois eus. O Eu que escreve é o eu real. O Eu que vive é uma construção social. Por isso, escrevo; escrevo para resistir. Escrevo para entender o mundo, para me entender no mundo. Escrevo porque ao registrar em palavras minhas inquietações, de algum modo eu estabeleço uma cartografia das minhas mais profundas e incompreendidas emoções. E assim, existo.


Por um tempo, quando me dei conta da minha moléstia existencial, cheguei a pensar que não queria conviver com ela, obrigar meus filhos, esposa e familiares a conviverem com ela. Mas, a opção seria o abandono e, penso, que ser abandonado deve ser muito pior. E, se ao menos não conseguir concretizar minha obra, ao menos espero que meus filhos não se sintam excluídos dela.


Apesar disso, nos trechos em que rascunhei minha paternidade, não criei ilusões sobre ser um pai perfeito, um grande pai; mas um bom pai, um pai possível. Não quero ter controle sobre meus filhos. Quero apenas não legar a eles as tragédias que herdei e na medida do possível legar ao mundo seres humanos dignos de uma existencialidade ética.


Meus filhos não são minha obra. Serão, espero, obras de si mesmos. No muito, influenciadas pelos rascunhos e fragmentos que vou deixando pelo caminho.


Giovani Miguez

30.12.2021


( carta-crônica )