nos meus rascunhos

escrevo com punhos

de ferro


ora são líricos

ora são políticos

meus cunhos


outrora, sou arredio

com os poemas que não são

do meu feitio


ainda assim, sem agravo

deixo nos poemas os cunhos

que cravo


#GiovaniMiguez

#sigaapoesia




MISÉRIA CRIATIVA


os dias eram apenas fragmentos colocados de lado quando o corpo, cansado, caia na cama e a cabeça, pesada, saia daquela lama toda que era seus dias. ao tocar nas plumas do travesseiro que, além de macio tinha o doce cheiro dos dias em que ele era mais inteiro, sua mente flanava em busca de memórias para construir as histórias que iriam ser contadas nas folhas em branco sobre a velha mesa no canto daquele pequeno conjugado apinhado de livros, garrafas vazias e poeira.


02.12.2021



NA VERDADE, LOUCA


uma mulher, desorientada, caminhava por entres os carros que estavam engarrafados na Rua do Senado. ela era louca, ainda assim, mais lúcida que que estavam ali, protegidos pelas suas bolhas motorizadas. ela, na sua loucura, já rouca, vomitava muitas verdades, pois entre ela e sua loucura havia toda a brutalidade da mais dura realidade.


02.12.2021


NOS VÃOS DE SI MESMO


não havia espelho na casa, apenas vãos. para ele, era impossível ver-se refletido noutro lugar que que fosse no seu ego doente e na sua completa falta de lucidez. era opaco e, por isso, tinha uma imagem deturpada de si mesmo. seu caráter estava borrado, seus desejos eram desenfreados e sua avidez produzia um borbulhamento incapacitante. o espelho fazia falta, pois Narciso não era tão belo assim na escuridão dos próprios vãos.


02.12.2021


BAMBÚRRIO


no caminho, uma joaninha atravessa meu pensar e eu mergulho naquela delicadeza toda como se fosse o pequeno besouro um pingente de ouro a me lembrar que a felicidade não pode esperar.


02.12.2021


OS MANACÁS DO CAMINHO


estou diante de um dilema: seguir caminhando sobre as pedras pontiagudas da vida ou pousar meu desalento sobre o manto de manacás derramados sobre jardim dos meus desencantos e, ali pousado, repousar minhas expectativas e angústias para acalmar a aguda vontade de, a todo custo, lutar


02.12.2021


NINHO VAZIO


caiu em si quando finalmente amanheceu e percebeu a cama vazia e arrumada. o quarto limpo, cheirava à saudade, os armários vazios não estavam mais empilhados. não havia bagunça. o quarto havia ficado pequeno para os sonhos que voaram junto com aquele passarinho que cresceu a abandonou o ninho.


02.12.2021


#GiovaniMiguez

#sigaapoesia

#suturas



Das prosas mínimas e outras poéticas*


TALIDADES


no plano do existir,

todo profeta é só pessoa,

mas que nem sempre acerta;

pois, entre o erro e o acerto,

há o real como devir.


TÂNATOS


ele desejou morrer

estando diante da morte

escolheu outra sorte


abraçou o viver

não por arrependimento

mas por avivamento


o deus mórbido

perdeu todo o sentido

diante do acometido

sentimento


24.11.2021


POR PURO DESCUIDO


pela janela aberta, um vento frio invade a casa e me atinge com suas sujidades. na cama, desesperado, salto tentando evitar o desastre. era tarde. o quarto estava imundo. eu, nú, exposto diante da vidraça translúcida arreganhada, ainda assim, apesar do corpo cheio de imperfeições, sentia-me limpo, puro e vívido diante do gozo que me fizera leve.


DOLCE FAR NIENTE


uma flor seca dentro de um livro antigo, apesar de morta, vivia e, ao viver, testemunhava um amor que pouco se sabia. na marginália do livro, um nome - Dulce - dava pistas sobre aquela história que perdeu-se na memória de alguém que não saberei quem, como não sei saberei quem foi Dulce. mas, sei que aquele instante será levado para minha estante de delicadezas insistentes.


25.11.2021


#GiovaniMiguez

#sigaapoesia




*primeiras est(éticas) do caderno "Suturas Metafísicas".