por Giovani Miguez


Olho para minha biblioteca e penso nos livros que li, nos que não li, nos que certamente não entendi, naqueles que talvez eu nunca leia, naqueles que talvez eu nem saiba que exista. uma biblioteca é, acho que já disse isso, a exata medida da nossa douta ignorância.


Uma biblioteca, talvez, seja uma das medidas possíveis e mais prováveis da consciência que uma pessoa tem da própria ignorância. É tolo acreditar que uma biblioteca revele apenas o grau de cultura, erudição ou inteligência de uma pessoa.


Uma biblioteca apenas desnuda a fome de um homem por conhecimento. quanto mais faminto ou guloso, maior é a necessidade de se afogar nos volumes apinhados.


Uma biblioteca hidrata a sede, mas também afoga aquele que se perde naquela imensidão epistêmica.


Uma biblioteca é ferramenta de ofício, é vício e pode ser também desperdício.


( crônica )




em memória de Ricardo Tibães Lass


Apesar de trágico, teu ímpeto

foi corajoso e permitiu-lhe a última vaidade

para conter a dor que te dilacerava.


No fim, foi só amor tentando aplacar a dor.

Amor... Afinal, era a amorosidade a tua

especialidade existencial.


Apesar de triste, entendo seu ato derradeiro.

Não te julgo, apenas espero que o tempo

conforte os teus desse jugo.


Foi brutal em qualquer sentido que se analise,

mas não seria o viver, também brutalidade

que enseje o deslize?


Só quem vive sem vontade de viver,

entende a coragem de quem escolhe

abraçar o ímpeto de morrer.


30.06.2021


por Giovani Miguez, em Propositum



Caetano Veloso (letra) e

Milton Nascimento (música)


Oco de pau que diz:

Eu sou madeira, beira

Boa, dá vau, triztriz

Risca certeira

Meio a meio o rio ri

Silencioso, sério

Nosso pai não diz, diz:

Risca terceira


Água da palavra

Água calada, pura

Água da palavra

Água de rosa dura

Proa da palavra

Duro silêncio, nosso pai


Margem da palavra

Entre as escuras duas

Margens da palavra

Clareira, luz madura

Rosa da palavra

Puro silêncio, nosso pai


Meio a meio o rio ri

Por entre as árvores da vida

O rio riu, ri

Por sob a risca da canoa

O rio viu, vi

O que ninguém jamais olvida

Ouvi, ouvi, ouvi

A voz das águas


Asa da palavra

Asa parada agora

Casa da palavra

Onde o silêncio mora

Brasa da palavra

A hora clara, nosso pai


Hora da palavra

Quando não se diz nada

Fora da palavra

Quando mais dentro aflora

Tora da palavra

Rio, pau enorme, nosso pai


Para ler o conto "A terceira Margem do Rio", de Guimarães Rosa, clique no link.


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Para ouvir a música:



Interpretação de Mônica Salmaso:



Para entende mais sobre o conto: