Um breve ensaio-poema.


o sono é uma oportunidade de descanso,

mas também de intimidade com o nosso inconsciente.


hoje, quando despertei do “cochilo” da tarde,

uma avalanche simbólica me soterrou.


acordado, sonhei lembranças

de uma perturbadora realidade onírica.


um vislumbre, ainda que turvo,

do que poderia ser uma ciência poética.


***


para poética ser, não basta ser expressão,

deve comover, sensibilizar e sentimentos despertar.


a poesia, para muito além do poema, é mais que literatura,

é arte que encanta e inspira a busca pela sublimação.


dos mais tristes aos mais alegres, em qualquer cultura,

a vida em todos os seus momentos, busca a poesia expressar.


não importa se prezo ou desprezo o viver,

a estética da poesia contempla do nascer ao morrer.


o poeta, quem diria, nada mais é que um solitário,

que na solidão que habita, elabora seu corolário.


eis, talvez, a tese da ciência poética:

toda a percepção da vida é integralmente est(ética).


a poesia é um fenômeno que da nossa humanidade emana,

sendo assim, a poética, é uma ciência da percepção humana.


mas, como toda ciência, qual é o objeto da poética?

a expressão da poesia humana, ética e estética.


assim ousei demonstrar sem qualquer anátema

a tese da ciência poética, neste breve ensaio-poema.


(De "Animal Poético", no prelo)




é tempo de escrever, cada um a sua história. de viver no tempo que resta, uma vida que presta. de esquecer toda essa lama e poder ir leve pra cama. é tempo, tempo de não soltar a mão de ninguém e garantir que haja história de alguém.

(07.02.2020)

Breves reflexões sobre o tempo entre pai e filho.


Há algum tempo, Benjamin, meu filho hoje com apenas seis anos, me surpreende com suas reflexões. Aos três anos, voltando da creche, ao olhar para o céu, disparou uma inquietação:


"Pai, por que o céu é azul?"


Eu, sem qualquer preparo, respondi que era azul porque ele reflete o azul do mar. Mas que nem sempre ele é azul, às vezes o céu é também tingido pelo amarelo do sol e fica amarelo.


São muitos os insights do meu pequeno filósofo. Nem sempre registro, o que é uma pena. Mas, o que aconteceu em uma manhã mereceu registro. Ele tinha apenas quatro anos.

No caminho da creche, passamos uns 40 minutos no carro. Na metade do trajeto, com Benjamin e Leonardo, o caçula, que ficava na casa da avó dele. Ao lado do irmão, num raro momento de paz e silêncio, ouço um sussurro:


"No passado, antes de entrar na barriga da mamãe, pai, eu morava no céu com a cuca, sabia?"


Quando paramos na casa da minha sogra, ele ficou parado com um sorriso de canto de boca, um ar cínico, olhando a avó falar com ele sem responder a qualquer estímulo. Um silêncio curioso de se ver. Quando o irmão saiu do carro, fechei a janela e comecei a andar com o carro, a figurinha dispara:


"Agora a gente pode voltar a pensar em paz, pai."


Esse acontecido, por si só já seria digno de um relato. Mas na segunda metade do trajeto o "petardo filosófico" foi mais certeiro e interessante. O assunto, embora ainda fosse sobre o tempo, seguiu mais elaborado:


"Pai o passado passou, o futuro vai chegar e o presente é agora. Você sabia?"


Orgulhoso dele, arrisquei complicar um pouco mais a reflexão e expliquei para ele que todo futuro vira presente e todo presente vira passado. Enquanto falava, pensei que estava sendo covarde na minha ousadia. Mas, depois de uns poucos segundos de silêncio, o pequeno disparou:


"Então, pai, ser criança é o meu presente, mas é o seu passado, não é?" Acenei com a cabeça positivamente, ele prosseguiu: " E ser adulto será o meu futuro, mas é o seu presente."


Muito orgulhoso, mas meio embasbacado, apertei um pouco mais o parafuso dizendo que ser avô era o meu futuro e o dele. E ele, afiado, foi mais uma vez certeiro:


"Então ser bebê é o meu passado e o seu também, papai..."


Eu disse que sim, esperando encerrar o assunto, mas ele não se deu por vencido e mandou o golpe final:


"... [ser bebê] é o presente do Léo, não é?"


Restou-me o silêncio e o orgulho.