Agradeço a Alberto Pucheu que, através de seu trabalho documental, ter me apresentado poetas tão potentes.

ritos poéticos

lendo Vicente Franz Cecim


eventualmente, o prazer

de viver escapa, cresce

fora.


daí, torna-se um desconhecido

estranho no ninho, bem

desinibido.


desesperados, em busca

de algo que nos reconecte à vida

versejamos.


a poesia torna-se, então

esse instrumento de religação −

uma religião.


nascemos de novo

em cada verso escrito

um rito.


Vicente Franz Cecim: autor, entre outros, Viagem a Andara.

montanhista

lendo Leonardo Fróes


se a montanha é íngreme

o montanhista, valente, se assanha

não treme

ao contrário, é possuído

por violenta sanha

um desejo imbuído.


vai subindo, ávido

desejando o cume do monte

ser reconhecido

não há nada, nada

que o amedronte

na escalada.


o desejo é seu norte

com coragem

enfrenta a sua sorte

mesmo a morte

iminente

daquela miragem.


Leonardo Fróes: autor, entre outros, de Sibilitz.


( por Giovani Miguez, em Mínima Poética )

O amanhecer é uma especiaria espiritual, um elixir da alma. Às seis da manhã, ainda sob o efeito da realidade onírica, é possível tocar as coisas em seu cintilar, sem deixar-se contaminar com a dimensão prosaica da realidade. O sol ainda não queima, apenas aquece a alma desencadeando um processo metafísico onde o espírito, ainda em êxtase, toca o mundo com os sentidos em sua plenitude. A poesia, no alvorecer do dia, é potente de amor. As dores da alma ainda não acordaram. Tudo que os sentidos tocam ainda é colorido com os tons vibrantes da nossa utopia existencial. É a mínima poética necessária para alimentar o espírito e dar ao corpo o impulso para atravessar a fúria do dia, quando os tons pálidos da realidade material ganharão força e se apresentaram ao espírito consumindo-o com uma fome avassaladora. O amanhecer, entretanto, durará pouco; em instantes, será consumido pelo fogo ardente do dia. (15.01.2021)

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o sol, ainda encabulado

aponta seus raios para o corcovado.


o Redentor, deserto

o recebe de braços abertos.


eu, reles mortal

admiro o instante fenomenal.


enquanto vagueio

busco no alvorecer algum esteio.


( por Giovani Miguez, em Mínima Poética)


Cristo Redentor, Rio de Janeiro, Brasil.


relendo a mim mesmo


a cada poema

um pouco de mim

escorre

morre...


a cada poema

um pouco de mim

renasce

cresce...


a cada poema

revigoro-me no verbo

crio memória

história...


a cada poema

revigoro-me no verbo

versos crassos

eu traço...


a cada poema

estabeleço minhas

revigorações.


( por Giovani Miguez, em Restauros )