Outono de 2020


Minhas esperanças empoeiradas

acumulam-se sobre minhas aflições.

Não sei mais quem sou ou onde estou.

Vivo cheio de infindáveis suposições

sobre essas as tantas caminhadas

desta minha vida que estagnou.


O mundo deu tantas voltas,

por todo o lado há tantas revoltas,

tanta gente sem rumo

neste mundo sem prumo.


Parece que estamos no escuro

tentando nos equilibrar neste muro

que nos divide entre dois territórios

que nada mais são que sanatórios.


É preciso espanar a poeira

que nos envolve com tanta loucura,

esta névoa densa e obscura.


Não podemos mais permitir

essa caminhada às escuras.


Não podemos mais nos omitir

e negar claridade e cura.


( por Giovani Miguez, em Terceira Pessoa, 1º caderno de 2020 )



SEM RESTOS


A teoria, ele disse, era esta: arrasar

tudo; mas ele não disse

que, hoje, por aqui,

na mesma língua

que a sua, com outro sotaque

que o seu, com outros usos,

ao sul do outro lado

do Atlântico, a prática

é ainda muito pior,

porque parece, como se isso

fosse possível, anteceder a teoria,

como ele disse, de arrasar tudo,

ou, ao menos, colocá-la literalmente

(desculpando-me a redundância)

em prática. Quando penso

nas minhas questões,

penso não haver a possibilidade

de teoria e prática serem

a mesma coisa, havendo,

a um só tempo, atravessamentos

e linhas de distinções

entre elas. No Brasil

de hoje, entretanto, quem pensa,

levando o pensamento

a uma prática nacional

ou praticando um pensamento

a partir de uma prática

nacional que o antecede,

pensa em uma identidade

sem restos

entre teoria e prática. Para o bem

e para o mal, a necessidade,

em algum grau, de uma identidade

entre teoria e prática

talvez seja uma das características

da política, mas o pensamento

dessa identidade

sem restos

é, certamente, o que há

de pior, o que arrasa

tudo e tanto quanto

ainda mais conseguir,

o que nos devasta

trabalhando

para nos deixar –

por mais descabido

e, consequentemente,

por mais doloroso

que isso possa ser –

igualmente sem restos.


...


Alberto Pucheu é poeta e ensaísta brasileiro, Professor de Teoria Literária do Departamento e do Programa de Pós-Graduação de Ciência da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Autor, entre outros, de Vidas Rasteiras, pela Editora Culta, 2020. Instagram: albertopucheu


...


Foto: Divulgação

...


[ Regras ]


Os interessados deverão enviar os poemas para giovanimiguez@gmail.com seguindo as seguintes orientações:

1. enviar, em arquivo word com até três poemas, um conto ou uma crônica de no máximo uma pagina cada, fonte Arial 12, paragrafo 1,5.

2. no final dos uma biografia de até 5 linhas, informando o seu perfil no Instagram.

3. anexar ao e-mail uma foto sua na horizontal.

4. deve constar no assunto do e-mail informações no seguinte formato: "Umanisté blog - Submissão de texto autoral - Nome".

5. Você poderá enviar até dois textos em cada gênero, desde que estejam cada texto em arquivos separados.


Espero seu texto!

palavras foram surgindo

uma a uma

eu, no mundo agindo.

coisa alguma fazia sentido

mas eu, cretino

queria fazer lirismo

por isso, ignorei o abismo

para poder rimar

romantizar

fantasiar.


era estética

minha vã poética

sem nenhuma ética

portanto, vazia

cheia de rima, mas desprovida

de vida

de verdadeira poesia

superficial

poluída

desde o manancial

da origem

não mais virgem

causando vertigem.


( por Giovani Miguez, em Sustenidos )