EU


acordo todos os dias

e, das intensas poesias

que vivi,

sonho palidamente

cada poema

que escrevi.


TU


não imaginas o tamanho

do vão que separa a imaginação

da razão,


não imaginas tão tacanho

ficamos quando abrimos mão

dessa relação.


ELE


era a própria experiência

tentando buscar alguma ciência

na consciência;


era observador

daquele mundo que, ao redor,

tocava-lhe pela dor,


mas reverberava

puro amor.


NÓS


que calados

diante daquela voz


nos escondemos daqueles

que, diante de nós, gritam

nos deixam sós,


entalados,

reles.


VÓS


que estais no limbo da razão

esperando o dia do juízo, saiba:

lute, mas lute muito, até que tua

luta não caiba

mais neste mundo diminuto

da falta de imaginação

perdida na escuridão

da lua.



ELES


caíram,

pois acreditaram

que as asas de cera

eram fortes,

mas, ávidos pela tal sorte

esqueceram,

pelo excesso de fé,

e tombaram

diante da montanha que

foram incapazes

de levantar.





#sigaapoesia

#giovanimiguez

por Silas Correa Leite*


Breve Resenha Crítica:



"Escrever é um ato de sobrevivência." - Eduardo Subirates

Com voz toda própria, peculiar e envolvente, o literato Giovani Miguez extrapola o campo da poética, e esparrama pelo chão da prosa de primeira qualidade. O escritor se apresenta: “... poeta, filosofante e socialista, autor de “Em terceira pessoa e outros poemas” (Outra Margem, 2021). Geralmente acordo ruminando as inquietações do dia anterior. Algumas vezes inquietações que ganham formas oníricas(...)”. Eis o ficcionista se inaugurando assim. Ei-lo também num poema recente, poeta contemporâneo de verve que é:


A última vaidade

em memória de Ricardo Tibães Lass


Apesar de trágico, teu ímpeto

foi corajoso e permitiu-lhe a última vaidade

para conter a dor que te dilacerava.

No fim, foi só amor tentando aplacar a dor.

Amor... Afinal, era a amorosidade a tua

especialidade existencial.

Apesar de triste, entendo seu ato derradeiro.

Não te julgo, apenas espero que o tempo

conforte os teus desse jugo.

Foi brutal em qualquer sentido que se analise,

mas não seria o viver, também brutalidade

que enseje o deslize?

Só quem vive sem vontade de viver,

entende a coragem de quem escolhe

abraçar o ímpeto de morrer...


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Pelo dito, falar do poeta é chover no molhado, e, brincando de dizer, sabemos que quem sai na chuva ácida é para se queimar, portanto, mudemos de tom. Falemos da prosa posuda de Giovani Miguez, que ora lembra Nelson Rodrigues, ora lembra Osvaldo França Junior, como toques de Jamil Snege e mesmo de Rubem Braga, mas um esmerado toque todo seu, sintaxe toda própria.


Quinto livro de Giovani Miguez, macaco velho nas redes sociais, nesta obra o editor Ni Brisant salpica na orelha dois, nominando-o assim: “Entre a memória e as invenções de Giovani Miguez, cada história vai nos convencendo e atravessando, seja através dos relatos de derrotas íntimas ou das amplas contradições cotidianas(...)”. Gestor Público, com ênfase em Políticas Públicas, especialista em Sociologia, Mestre e Doutorando em Ciência da Informação, Giovani Miguez assenta, delata, registra, toca o colmeial de palavras em prosa saradinha, gostosa de ser nele e se ler nelas, com a chamada mágica mão em narrativas de se pegar com as palavras e passear com elas, por elas, e em nelas...


Júlio Cortázar (1914-1984) muito bem sintetiza o conceito de conto de Poe: “Um conto é uma verdadeira máquina literária de criar interesse”(...). “O conto é uma arte sintética, que trabalha com a seleção”(...). “O romance vence sempre por pontos, enquanto o conto deve vencer por nocaute”.


Os contos de Giovani Miguez têm essa premissa, contar, pura e simplesmente, num olhar fecundo e sensível de tentar compreender a vida, as vicissitudes da vida, desamparos, acolhimentos, dissabores, num olhar até, aqui e ali meio poético, romântico que seja. Mas, antes de tudo bem ético-humanista, feito uma máquina em lambe-lambe colhendo imagens e palavras, situações e conflitos, sempre assim, trocadilhando, na primeira pessoa de si mesmo, como um recolhe; refabulando virtudes, essências e situações humanas nesses tenebrosos tempos de muito ouro e pouco pão.


Sendo CONTO uma narrativa que cria um universo de seres, de fantasia ou de acontecimentos, NEM TE CONTO E OUTROS CONTOS enreda as teias da vida, os arames e armações de percurso, no teatro às vezes ordinário dessa vida dura de se lidar, dura de se levar, mas de se apanhar seus limites, incompletudes e afins, para registrar tudo, documento de época, tempo, espaço e lugar, como nesse livro em que o autor se afirma, se apresenta e sai-se bem, porque escrever é seu oficio, como diria Millôr, sua “pá-lavras”.


“"São ficções, descrições e escrivinhações do meu espanto, mas recheadas de lembranças, em parte da infância e da primeira parte da minha vida, onde foram gestadas as inquietações que me tornaram escritor”, diz o site do livro, apresentando a obra.


Escrever e criar, é só começar? Para Giovani Miguez é um deleite. Que nos encanta, e nos aproxima ainda mais do chamado outro humano em nós.


Bravo


-0-


Link para comprar o livro

"Nem te conto e outros contos"


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* Professor, Jornalista, Conselheiro em Direitos Humanos, Escritor membro da UBE-União Brasileira de Escritores, autor, entre outros de CAVALOS SELVAGENS, Co-edição da LetraSelvagem (SP) e Kotter (PR) Editoras, sexto romance do autor, no prelo. Contatos com o autor: poesilas@terra.com.br



Caderno "Eu Estético"


Os conceitos são gavetas que servem para classificar os conhecimentos; os conceitos são termos de confecção que desindividualizam os conhecimentos vividos. Para cada conceito há uma gaveta no móvel das categorias. O conceito é um pensamento morto, já que ele é, por definição, pensamento classificado. - Gaston Bachelard, em Poética do Espaço

Os quatro poemas a seguir abrem meu 26º caderno de poemas, o sexto de 2022; um caderno onde inicio registros estéticos influenciados por leituras da obra Diurna e Noturna de Gaston Bachelard.


EU


acordo todos os dias

e, das intensas poesias

que vivi,

sonho palidamente

cada poema

que escrevi.



NO RASO MERGULHO


o ego é só

ilusão,

pura constituição

do humano

que, impuro,

faz-se no mergulho raso

da linguagem

pálida imagem

do Uno.



A MORTE DOS CONCEITOS


na pena que empunho,

vou matando os conceitos

nos cunhos

da minha poesia;

fundindo aos objetos

os sujeitos,

na negação das categorias,

da classificação;

tentando ser, ao mesmo

tempo, vertical

e horizontal,

instante e duração,

razão e sensação,

estabelecendo na metafísica

da minha poesia

uma aguda fenomenologia

do vão,

uma dialética da

sensação.



INSTANTE POÉTICO


a poesia é feita de instantes.

o poeta,

esse ser complexo,

de sentimentos relutantes,

perplexos;

ainda assim,

o instante poético,

repleto de dualidades,

faz do poeta

um ser de metafísicas,

onde versos

criam universos,

criam faíscas;

onde os fenômenos

não são criados pela mente,

mas fotografias

de uma profunda cartografia

do eu inconsciente

que colapsa no papel

como a poesia

do não-eu.



#GiovaniMiguez

#sigaapoesia

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