As orelhas de Chico

( crônica )


O barulho da rua era perturbador. Chico não gostava. Sempre que abríamos as janelas ele cobria as orelhas demonstrando seu descontentamento com aquele som que claramente o deixava mal humorado. Mas, era impossível manter as janelas fechadas no calor de 40 graus que fazia no Rio de Janeiro. Meu amigo, entretanto, parecia preferir derreter-se a suportar o som dos carros, a algazarra das maritacas e, ainda por cima, a gritaria das crianças que saiam da escola.


O barulho da rua tinha sobre ele um efeito que não entendíamos. Afinal, não era um incômodo que sempre existiu. Era algo recente. Começou a ser percebido quando o isolamento social foi relaxado e a vida começou a voltar ao novo normal. Chico, entretanto, seguia em casa, o dia todo sozinho desfrutando unicamente da companhia do ventilador que era mantido ligado para dar-lhe algum alívio nesses dias tórridos do fim de primavera.

Passamos a suspeitar que algo estivesse errado com nosso menino. Mas o que poderia ser? Na pior da hipótese, Chico tinha se acostumado com o silêncio dos dias de pandemia. Nem as maritacas andaram pelas árvores da praça. As crianças confinadas. Menos carros na rua. Pensamos que ele se acostumaria novamente com a rotina. Mas as semanas iam passando e nada. O menino era só irritação. Talvez fosse hora de ver um especialista.


Resolvemos tomar uma medida paliativa. Adaptamos um fone de ouvido para diminuir os barulhos. Mas, nada. Chico não gostou da solução. Os fones o deixaram ainda mais irritado. Passamos a deixar as janelas fechadas por um tempo, mesmo sofrendo os efeitos do imenso calor. Chico acalmou. Parecia outro. Não queria outra vida. Deitava-se no chão e lá ficava sentindo a brisa do ventilador. Talvez Chico estivesse mesmo com sensibilidade aos barulhos dos do mundo.


Suas orelhas aprenderam que um mundo com menos humanos transitando é menos barulhento e mais agradável. Não queria mais pertencer àquela balburdia. Senti inveja de Chico e sua sabedoria. Suas orelhas acostumaram-se ao silêncio. Eu vivia aquela confusão instintivamente, de orelhada, como se o cachorro fosse eu.


Chico na pandemia amadureceu! Eu, não.





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