Benjamin, o pequeno filósofo.

Breves reflexões sobre o tempo entre pai e filho.


Há algum tempo, Benjamin, meu filho hoje com apenas seis anos, me surpreende com suas reflexões. Aos três anos, voltando da creche, ao olhar para o céu, disparou uma inquietação:


"Pai, por que o céu é azul?"


Eu, sem qualquer preparo, respondi que era azul porque ele reflete o azul do mar. Mas que nem sempre ele é azul, às vezes o céu é também tingido pelo amarelo do sol e fica amarelo.


São muitos os insights do meu pequeno filósofo. Nem sempre registro, o que é uma pena. Mas, o que aconteceu em uma manhã mereceu registro. Ele tinha apenas quatro anos.

No caminho da creche, passamos uns 40 minutos no carro. Na metade do trajeto, com Benjamin e Leonardo, o caçula, que ficava na casa da avó dele. Ao lado do irmão, num raro momento de paz e silêncio, ouço um sussurro:


"No passado, antes de entrar na barriga da mamãe, pai, eu morava no céu com a cuca, sabia?"


Quando paramos na casa da minha sogra, ele ficou parado com um sorriso de canto de boca, um ar cínico, olhando a avó falar com ele sem responder a qualquer estímulo. Um silêncio curioso de se ver. Quando o irmão saiu do carro, fechei a janela e comecei a andar com o carro, a figurinha dispara:


"Agora a gente pode voltar a pensar em paz, pai."


Esse acontecido, por si só já seria digno de um relato. Mas na segunda metade do trajeto o "petardo filosófico" foi mais certeiro e interessante. O assunto, embora ainda fosse sobre o tempo, seguiu mais elaborado:


"Pai o passado passou, o futuro vai chegar e o presente é agora. Você sabia?"


Orgulhoso dele, arrisquei complicar um pouco mais a reflexão e expliquei para ele que todo futuro vira presente e todo presente vira passado. Enquanto falava, pensei que estava sendo covarde na minha ousadia. Mas, depois de uns poucos segundos de silêncio, o pequeno disparou:


"Então, pai, ser criança é o meu presente, mas é o seu passado, não é?" Acenei com a cabeça positivamente, ele prosseguiu: " E ser adulto será o meu futuro, mas é o seu presente."


Muito orgulhoso, mas meio embasbacado, apertei um pouco mais o parafuso dizendo que ser avô era o meu futuro e o dele. E ele, afiado, foi mais uma vez certeiro:


"Então ser bebê é o meu passado e o seu também, papai..."


Eu disse que sim, esperando encerrar o assunto, mas ele não se deu por vencido e mandou o golpe final:


"... [ser bebê] é o presente do Léo, não é?"


Restou-me o silêncio e o orgulho.




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