Diante do espelho

( crônica )


Todos os dias, quando acordo, ainda sob o torpor do meu estado onírico, sinto como se estivesse diante de um espelho. Neste momento, nascem meus mais ricos versos. Diante do espelho, sou muitos, mas ainda assim sou eu, porque tudo o que penso, ainda que inspirado por Morfeu, ainda assim, sou eu.


Minha poesia jorra da minha história, do meu lugar de fala, das inquietações que trago na memória, da minha biografia, até da desarmonia que carrego e de toda a vontade que tenho de expressar minha saudade dos tempos de tenra idade e projetar minhas expectativas para a terceira idade.


Faço da poesia um modo de vida, uma rotina para evitar ou ao menos amenizar tudo aquilo que me desatina, que me aprisiona nessa zona de desconforto entre a existência e a desistência. Crio com meus poemas pontes para atravessar os muitos abismos deixamos por tantos abalos sísmicos como rugas nesse imenso planeta que sou feito da mais pura e dura poesia.


Sou poeta que caminha sob uma intensa chuva de palavras, tentando alimentar o manancial das minhas modestas lavras. Escrevo porque se não descrevo toda essa perturbação íntima a vida torna-se um estigma maculado desde a fonte de seu manancial. E isso me consome. Por isso, tenho certeza, tornei-me poeta. Para colocar diante de mim uma seta que aponta para o horizonte sem desprezar a fonte desse meu imenso desejo de versejar.


Ao tentar descrever, ainda que palidamente, eu sei, minhas percepções desse complexo mundo onde caminho, eu percebo que, apesar de todo afeto que vejo ao redor, lá no fundo estou sozinho, não solitário ou isolado, mas repleto de vazio que vou preenchendo com versos para dar algum sentindo ao meu universo íntimo.


Da poesia que bebo alimento meu ego, meu si mesmo e nutro-me de algo que tem um efeito intenso sobre esse imenso desejo de ser fidalgo em meus gestos. Os que habitam esses mundos sobrepostos, alguns até indigestos que, para garimpar alguma poesia, precisam ter alguma maestria ou dominar a ciência do desapego para não deixar transbordar o ego que nos enfeitiça do outro lado do espelho.


( por Giovani Miguez )



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