Dos arigós ao aço. Do aço aos livros

por Giovani Miguez


Texto criado por ocasião da eleição para membro correspondente da Academia Volta-Redondense e Letras.


Nasci cidade da curva do rio, na terra que abrigou uma multidão de arigós e, sobre o suor de cada um deles, ergueu a imponente Companhia Siderúrgica Nacional, e fez de Volta Redonda a Cidade do Aço. Nesta cidade aprendi a gostar dos livros e por eles adquiri grande respeito. Foi graça ao abraço dos livros que minha juventude foi salva, apesar de ter crescido em uma casa de poucos livros e uma cidade de poucas livrarias. Até hoje, salvo melhor juízo, minha cidade só conta com duas livrarias. Mas, felizmente, mamãe tinha o bom hábito de adquirir aquelas enciclopédias que mascates traziam-nos vez ou outra. Não podíamos ter uma Barsa ou uma Britânica. Mas, em nossa sala, além dos muitos livros espíritas, religião que não sigo mais, tínhamos duas enciclopédias (Edipe e Ibope, de 11 volumes cada), além de alguns anuários e almanaques que vez ou outra um mascate trazia.


Tenho recordações das tardes deitado no chão da sala, com varias enciclopédias abertas e eu ali, absorto naqueles volumes, fascinado com tudo que havia a se aprender naquela tantas páginas. Dos dez aos 14 anos, li cada um daqueles volumes com um ávido respeito. Lembro-me, ainda, dos gibis e romances espíritas que lia, deitado no sofá ou no galho do abacateiro do terreno baldio em que me refugiava para gozar da companhia das palavras que iam forjando meu imaginário.


Durante a adolescência, entre os dez e os dezoito anos, escrevi poemas, centenas deles, em cadernos escolares. Foram dez cadernos que, infelizmente, por desencanto e imaturidade, acabei jogando fora e hoje o que resta de lembrança são minhas memórias turvas daquela época, daquela sensação de ser poeta, dos fragmentos que ainda habitam minha mente, apesar de enterrado sob os escombros que ficaram.


Foram duas décadas sem escrever poesia, mas devorando livros de topos os gêneros, exceto poemas e, por metade desse tempo, nem romances. O mundo da literatura para mim passou a significar perda de tempo. Lia filosofia, sociologia, psicologia, antropologia e todas as leituras onde encontrava utilidade. Esquivei-me por muito tempo do que considerava inútil. A falta de contato com ficções e poesia foi criando uma couraça na minha sensibilidade e minhas emoções foram adoecendo.


Em 2016, sucumbi e, doente, passei a procurar aliviar a dor que sentia anotando minhas angustias emocionais e agonias racionais em um diário. Estes exercícios ocuparam meus anos de 2017 e 2018. Assim, em 2019, nasceu o meu primeiro livro, Quase Histórias, onde registrei minhas est(éticas) em existenciais. Desde então, não passou um dia em que não tivesse escrito e, assim, dez livros, mais seis cadernos e quase três mil poemas nasceram dessa sangria social e existencial que, posso dizer, é minha obra poética.


No meio do caminho, muitas foram as pedras. Mas, maiores foram os encontros e abraços. Das pedras, dos abraços e dos encontros venho forjando minha obra poética ainda em processo de construção; uma obra muito modesta, mas igualmente sincera, que trago hoje para esse encontro e reencontro com tantos confrades de ofício da minha terra natal.


Passo a ocupar hoje, com grande entusiasmo, a Cadeira 10 na condição, membro correspondente, da Academia Volta-Redondense de Letras, ao lado de escritores e escritoras que tanto admiro e respeito e que, tenho certeza, almejam, como eu, forjar um movimento estético, artístico e cultural que se funde nas raízes de uma cidade que, outrora do Aço, possa ser conhecida, um dia, como a cidade da arte, da cultura e dos livros.


Saravá Volta Redonda!


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