Fardo ideológico

Na juventude, apesar de filiado ao PDT e, posteriormente, ao PSB era um liberal. Defendi até os trinta anos a tal meritocracia, era um entusiasta da ideologia empreendedora e, digo com vergonha, defendia o modelo educacional americano.


Apesar de pobre, filho de um operário e criado na periferia da minha cidade, acreditei que poderia estar, um dia, entre a elite. Era um proletário que fantasiava ser burguês, sem qualquer vestígio de consciência de classe e que sentia vergonha da minha condição social.


A ficha caiu começou a cair em 2005, quando, em viagem à Salvador, pude ver a diferença de classe com muita nitidez em um auditório da UFBA, onde ocorria um treinamento para jovens lideranças empreendedoras. A juventude da periferia, a maioria preta, era minoria e perdia-se em meio a uma maioria branca, de classe média alta. Naquele dia o mito da meritocracia caiu por terra. Aquele auditório denunciava: aqueles jovens nunca tiveram e nunca teriam as mesmas oportunidades.


Em 2010, participei de projetos de inclusão em duas comunidades do Rio. Lá, apesar de não acreditar mais em meritocracia, ainda defendia que a atitude empreendedora poderia salvar parte daqueles jovens. A verdade, entretanto, estava na minha cara: o empreendedorismo enquanto ideologia das elites, só servia a um único interesse; ou seja, disfarçar uma tentativa clara de precarização do trabalho. A “uberização” e a popularização dos aplicativos, em 2020, veio confirmar aquilo que dez anos antes já estava posto no projeto liberal: a classe trabalhadora é apenas vítima do tal empreendedorismo.


Olhando para os últimos vinte anos, posso dizer que estou mais leve. Ao menos um dos fardos existenciais eu deixei pelo caminho. O fardo ideológico liberal não preciso mais carregar. Mais leve, consigo olhar para o mundo com mais humanismo, mais responsabilidade social e, antes tarde do que nunca, aprendi a ter consciência de classe.


Para muitos, apenas troquei uma ideologia por outra. Para mim, entretanto, abandonei uma ideologia excludente, pesada e individualista para abraçar uma ideologia inclusiva, leve, comunitária. Não sei se a troca de ideologia tornou minha caminhada existencial mais leve.


Mas, a minha consciência, sim, esta ficou bem mais leve.


( Giovani Miguez )



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