Golpe verde maritaca

Atualizado: 30 de Nov de 2020

( crônica )


Um gol verde estava sempre estacionado na esquina. Não era qualquer gol, era um GOL GTI fabricado em 1990. Raridade. Não era qualquer verde. Era um verde maritaca. O Bicho era bonito. Todo original. Raro. Eu, fã de raridades, namorava aquela relíquia automotiva.


"De quem será?", quem passava pela rua sempre perguntava. O danado chamava atenção. Estava sempre limpo e brilhando. Mas, raramente o dono era visto. Diziam que era de um aposentado que morava na vila ai perto. Foi o último carro zero que comprou. Então tratava o carro como um zelo de dar inveja.


Um dia, dia de eleição municipal, o carro apareceu todo arranhado. Foi de cortar o coração. Na lateral lia-se sem grandes dificuldade "#FORAZÉPILANTRA". Todo mundo que via o vandalismo saia indignado. Era crime hediondo. "Como podiam macular um obra de arte, uma raridade aquelas?", era a pergunta que todos faziam quando passavam pelo velho golzinho.


Rui, filho da dona Rute, viúva do seu Rutílo e admirador do gol, estava indignado. Andava como um louco de um lado para o outro nas proximidades do local onde o crime ocorreu.


"Se eu souber quem fez isso, mato o desgraçado", dizia o rapaz para quem passasse e demonstrasse algum tipo de indignação ou afeto para o símbolo da rua. O menino parecia dono, ou quem sabe herdeiro, do velho gol.


Todos esperavam que o dono se pronunciasse. Mas, nada. A velha casa, como sempre, estava deserta, abandonada e em total silêncio. A indignação aumentava. "Como o proprietário dessa obra de arte pode não se posicionar diante de tal atentado!", era o pensamento comum a todos.


A fotos e os vídeos viralizaram nas redes sociais. Toda a cidade estava indignada. A notícia entrou até no plantão dos noticiários. Até quem não conhecia o golzinho indignou-se. O resultado disso foi, dado a impossibilidade de linchar o vândalo, linchar o opositor do tal "ZÉPILANTRA", prefeito da cidade que tentava a reeleição.


O candidato da oposição, coitado, pagou o pato. Perdeu de lavada. A eleição, outrora perdida pela situação, sofreu uma reviravolta graças ao golzinho verde maritaca. Coincidentemente, o gol tinha cor do partido do prefeito que pleiteava ser reeleito e fora comprado pelo pai quando filho entrou para o grupo de paraquedistas do exército há 30 anos atrás.




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