Meu projeto poético

( crônica )


Um livreiro disse que “tenho um projeto poético”. Pois é, se tenho, só não sei qual é. Mas tenho um projeto, provavelmente intuitivo. Isso parece estar claro na minha produção, pois já ouvi isso de algumas pessoas. Minha esposa e eu concordamos que “todo poeta precisa ser um tanto melancólico para verter poesia”. Talvez seja esse meu projeto poético. Não tenho certeza, mas deve passar por aí. Afinal, minha poesia já foi acusada de “triste demais” por mais de meia dúzia de leitores.


Enfim, se tenho um projeto ele não é intencional, é instintivo. Sou um “animal poético”, eu mesmo afirmei isso. E o cerne dessa afirmação reside no fato de que eu tento, não sei se com sucesso, reunir ética e estética em um alinhamento est(ético). Há quem não goste dessa minha mania de enfiar parênteses no meio da palavra. Mas, ao escrever estética com parênteses, afirmo meu projeto est(ético) existencial. Essa é a minha poética, mesmo quando escrevo (ou tento escrever) em prosa.


Esse insight veio ontem (05/01/2021) na Livraria São Francisco, no Grajaú, onde Danilo, um daqueles livreiros astutos, jogou a afirmação “vejo seu projeto poético”, talvez tentando consolar-me enquanto eu duvidava da qualidade da minha poesia. Mas, refletindo em casa, no silêncio da noite, chego a concordar com ele. Afinal, examinando Quase Histórias (Autografia, 2019), Animal Poético (Multifoco, 2020), Da Ilha da Poesia, com Ricardo Garcia (Selim Trovoar, 2020) e Um poema por dia (Selim Trovoar, 2020) percebo um projeto. Meus nove cadernos produzidos (ainda não publicados) em 2020 também apontam para esse projeto. Mas, é claro, não cabe a mim examinar minha própria obra. Talvez, algum dia, eu seja digno de alguma crítica. Por hora, apenas escrevo, ou melhor, verto minha sangria em poesia.


O fato é que meu projeto poético – soa bem falar assim! – passa por essa abundância de versos e reversos que estão impressos na minha escrita. Para o Vitor Miranda, do Movimento Neomarginal, minha poesia “não tem método, mas instinto. Cada poema é um animal poético.” Encarei como elogio. Um elogio à compulsão est(ética) que me consome.


Meu projeto, talvez, seja esse verter compulsivo que me torna vivo. Essa avidez por transformar dor e amor em uma espécie de clamor pelo ofício que também é vício. Afinal, como disse o Osório Barbosa, sou "prolífero".


Vai saber...



Foto: Canecas Poéticas ( livro de porcelana, da TeiaCollab)

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