Momentos com você

para Frutos da Poesia


Era outono quando, sem pedir licença,

você chegou devagarinho e se apresentou.

Confesso que fiquei incomodado com sua presença.

Mas, como quem não queria nada, você me abraçou

e passou a ser uma estranha sentença

que nunca mais me abandonou.

Como uma doença.


No início, era até divertido.

Seus abraços produziam alguns acalentos.

Apesar do meu coração partido,

vivíamos alguns significativos momentos.

Nosso conflituoso casamento era nítido

a permeava tantos acontecimentos.

Era abusivo, mas consentido.


Na adolescência, você se apequenou.

Foram anos estranhos, mas de muita euforia.

Uma pena que toda essa turbulência passou

e levou com ela toda aquela intensa poesia.

E hoje me pergunto: o que restou

de toda aquela alegria?

Por que acabou?


Até que um dia veio a maturidade.

Quanto mais maduro eu fiquei, mais sereno

e menos imune às máscaras da realidade.

Seu julgo era cada dia mais obsceno.

Não era mais possível plena felicidade,

e sua presença tornou-se amargo veneno,

de alta toxidade.


Custou-me muito reconhecer

todo o seu poder, toda subjugação

e o quanto você me fez sofrer.

Hoje reconheço que essa estranha relação

não teve nenhum momento para agradecer

Foi tudo só escuridão, crônica depressão.

Nunca houve eu e você. Era sempre só você.


Cartas de uma relação.

( 02.03.2020)