Nem te conto

( conto )


"Nem te conto",disse o padeiro, "sabe aquele menino que mora na casa lá da esquina? Pois bem, ele é maricas."


A mulher, meio sem graça, sinalizou com a cabeça negativamente, mas preferiu não tecer comentário algum, pois poderia piorar a situação diante daquele que trazia seu pão de cada dia.


"O pior", seguiu ele, "é que a mãe do menino aceita essa pornografia de boa. parece que até gosta dessa situação."


"Talvez não seja questão de gostar, mas de respeitar...", ela disse.


"Sei não. Isso não é de Deus. Ele fez homem e mulher. O resto é invenção da gente que insiste em viver em pecado"


Não havia mais argumento. Quando a conversa descamba para Deus, pecado e coisas desse tipo, é melhor não insistir. Ela pagou o pão, agradeceu e se despediu. Ele, ainda indignado seguiu a diante.


No outro dia, o "nem te conto" do padeiro estava na boca da rua inteira. Ela, incomodada, só pensava no constrangimento dessa fofoca toda para dona Ester, mãe do Flávio, o menino da esquina. Deveriam estar bem chateados com tudo isso. Queria ser solidária, mas não sabia como abordar esse assunto.


Após o almoço, enquanto estendia a roupa no varal decidiu que ir ligar para Ester sob um pretexto qualquer. Quem sabe o assunto surgia naturalmente.


Quando a noite caiu, ela arriscou um telefonema.


"Alô!"


"Ester? "


"Sim, sou eu."


"Aqui é Teresa, da casa 422. Estou ligando para saber como você está e te convidar para tomar um café com broa qualquer dia desses. O que acha?"


"Teresa... Ah, sim! Teresa. Podemos sim. Por que não. Mas teria que ser semana que vem, pois essa semana estarei viajando para uma apresentação do Flávio na capital."


"Apresentação?"


"Sim. Nem te conto. Ele entrou para uma companhia de balé e fará participação em um espetáculo. Será na sexta. Mas vou amanhã para aproveitar e conhecer a capital."


"Balé! Que legal. E ele está gostando?"


"Muito. Nasceu para dançar!"


"Que bom. Bem, quando voltar não esquece do nosso café, hein!"


"Esqueço não. Até."


"Até. Boa viagem!"


Não rolou, pensou ela, mas o menino faz balé e está gostando. Deve ser gay mesmo. Enquanto passava as roupas e desamarrotava seus próprios preconceitos, a mulher ia pensando no mundo que tinha mudado sem que o padeiro tivesse acompanhado.


Ela ao menos estava se esforçando. Era seu consolo.




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