O desencontro

( conto )


O menino chorava copiosamente sentado em frente à porta da Igreja. Os fiéis passavam, mas como a roupa do pequeno era rota deduziram ser criança de rua e, portanto, bicho. É claro que ninguém assumia essa percepção cruel. Mas, uma esmola dada com piedade amenizava qualquer culpa que pudesse pairar sobre a elevada consciência cristã que, aliás, era bem generosa dada a quantidade de moedas que ornavam o entorno do menino.


O vendedor de bandeiras que trabalhava no sinal bem em frente à Igreja incomodou-se com o pranto do menino. Não era dali, pensou, pois se fosse ele saberia de pronto. Há quase dez anos vendia suas bandeiras na porta daquele santuário no centro da cidade.


"Onde está sua mamãe, garoto?", perguntou.


O menino, enxugando as lágrimas, olhou por um tempo para ele e suspirou antes de dar sua resposta. Parecia precisar de ganhar fôlego, pois chorar cansa e o ambulante sabia bem disso.


"Foi embora."


"Como assim embora? Morreu?"


"Não. Foi embora mesmo. Pediu para eu ficar esperando aqui, mas nunca mais voltou. Esperei dias, mas nada. Daí, vivo pelas ruas, mas sempre volto aqui nos dias de missa, pois quem sabe ela volta."


O vendedor respirou fundo, engoliu uma estranha sensação de tristeza e olhou para o menino com certa piedade.


"Está com fome?"


"Sim", disse o garoto sinalizando timidamente com a cabeça.


Sentaram-se na escadaria e dividiram a quentinha que o ambulante havia comprado por dez reais na pensão popular que tinha atrás da igreja e era mantida pelas beatas. O menino, visivelmente faminto, nem mastigava direito. Comia como pato.


"Vai com calma, garoto, assim você pode engasgar", alertou.


"Está muito gostoso."


"Qual a sua idade?"


"Dez", disse ele enquanto lutava com um pedaço de carne.


"Não tem ninguém, digo, além da sua mãe?"


"Que eu saiba não. Sempre fomos só nós dois."


O coração do vendedor estava cortado, mas o que ganhava com as bandeiras mal dava para pagar o aluguel do quartinho e comer. Como poderia ajudar aquele garoto?Algo no seu olhar o atraia de modo estranho. O coração de pobre, entretanto, gritava dentro dele e uma voz interior dizia: "onde come um comem dois". Mas, a razão falou mais alto e o coração foi demovido desse arroubo súbito de humanidade.


"Te cuida, menino!", disse ele com pesar, "Procure o padre da paróquia, ele certamente poderá te ajudar a encontrar sua mãe ou, quem sabe, te arrumar um lar."


"Obrigado!", respondeu já não tão choroso.


O sol foi caindo, a noite chegando e o ambulante começou a recolher suas bandeiras para voltar para o seu quartinho. A presença do menino, ainda sentado na escadaria, incomodava-o estranhamente. Mas, estava determinado a não se envolver mais do que já havia feito. Era um solitário e precisava ser assim para expurgar algumas culpas do passado.


Em casa, depois de tomado seu banho, enquanto comia uma canja com os restos do almoço do dia anterior, ele percebeu que o menino ainda estava presente em seus pensamentos.


"Como ele vai passar a noite? Será que tem um abrigo seguro? Está frio. Será que ele tem algum cobertor ou agasalho?", pensava sem parar. Não conseguia dormir, nem após tomar três doses da cachaça que guardava em um garrafão para dias como aquele em que o sono não vinha. Passou a noite em claro, mas não teve coragem de ir atrás do menino. Foi a noite mais longa dos últimos meses. E olha que a vida não era tão generosa com ele.


Por volta das seis horas, tomou seu café, arrumou um pão com manteiga extra, uma garrafinha com café e foi para sua labuta. Naquele dia, o carrinho com as bandeiras parecia mais pesado.


"É o peso da consciência", pensava.


O menino não estava mais lá. Ninguém havia visto. Aliás, ninguém havia notado sua presença. Imagina a ausência. O coração do vendedor doía por conta do remorso. Algo nele dizia que era sua a responsabilidade de ajudar o garoto. Mas, foi covarde.


Na rádio, uma notícia sobre a chacina de dez garotos que dormiam em uma velha construção bem perto dali era anunciada O locutor estava comovido. A voz embargada denunciava a tragédia..


"Meu Deus! O menino!", pensou alto.


Largou suas bandeiras aos cuidados do José do Amendoim, que dividia o sinal com ele, e saiu desesperado em direção à velha construção. Chegando lá, uma multidão, aglomerava-se na calçada. Os corpos estavam alinhados no chão esperando a liberação do IML e que algum parente reclamasse seu pequeno morto.


Mais uma vez, ele acovardou-se. Ameaçou recuar e voltar para sua vida medíocre. Mas, sentada na calçada uma mulher que parecia ser Odete, uma ex-namorada de anos atrás, chorava copiosamente.


"Odete?"


"Januário!", respondeu ela levantando-se e correndo para abraçar ele.


"O que houve, mulher?"


"José está morto", disse ela soluçando.


"Seu filho?"


"Sim. Ele estava desaparecido a meses. Pedi para ele me esperar na porta da Igreja aqui perto. Íamos encontrar com o pai dele. Mas, fui atropelada e fiquei inconsciente por semanas. Desde então não faço outra coisa que não seja procurá-lo. A assistente social que acompanhava o caso identificou ele entre os meninos mortos e me avisou."


Januário estava gelado. Não sabia o que pensar. Só lembrava que o menino havia dito que tinha dez anos. O mesmo tempo que Odete havia partido após uma briga que resultou em uma covarde agressão dele contra ela. No outro dia, quando acordou ela havia ido embora sem deixar vestígios. Logo em seguida, ele mudou-se para o quartinho do centro do cidade e nunca mais a viu. Nem nunca mais voltou para Belford Roxo, onde viviam. Um certo desespero tomou conta dele. Mas ele ainda teve forças para uma pergunta que fez com muito medo.


"E o pai do garoto?"


"Perdão!", disse ela olhando nos olhos dele enquanto ajoelhava-se no chão e entregava-se ao desespero e ao arrependimento.


Januário havia sido dilacerado com aquele olhar. Perdeu a força nas pernas. Praticamente caiu ao lado ela e chorava como se o coração dele tivesse sido arrancado do seu peito. Eles se abraçaram, mas era impossível consolo para uma dor tão avassaladora.


A vida havia tentado um reencontro. Mas, o desencontro venceu com requintes de crueldade.


( por Giovani Miguez )




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