O homem nu

Atualizado: 3 de Dez de 2020

( crônica )


Um homem nu caminhava pelas ruas do centro. Estava completamente exposto, imundo e, ainda assim, invisível. Debaixo do seu braço havia um livro velho e ensebado, tão sujo quanto ele ou quanto às ruas do centro da cidade. O homem, pensei, atentava ao pudor. Mas, ninguém reparou que aquele humano desconstruído estava sem roupas.


Todos tinham pressa, desprezo e desumanidade. O homem caminhava sem vergonha alguma. Talvez a vergonha tivesse sido deixada com as roupas e a dignidade que a indiferença lhe roubou. Para ele, esse era o novo normal. Para mim, talvez fosse aquele o normal de sempre. Afinal, moradores de ruas são invisíveis a não ser que ofereçam alguma ameaça à segurança pública ou ao menos à estética burguesa.


Naquela cena toda, o livro chamava minha atenção. Que livro aquele homem carregava com tanto apego? Por que desapegou das roupas e da dignidade, mas não do livro? Na medida em que ia aproximando-me dele, tentava a todo custo descobrir qual era aquela obra. O homem nu nem me incomodava. Percebi que as pessoas à minha frente passavam sem notar o escandaloso atentado ao pudor. Eu o notava, mas não pelo pudor e sim por parecer ser um leitor.


Ao cruzar pelo homem junto com seu forte cheiro de abandono, consegui ler qual era o livro. Naquele momento entendi tudo. Foi como se uma chuva de lucidez caísse sobre mim, mostrando o quanto os símbolos de uma sociedade decadente mostram-se na nudez alheia.


Aquele homem não estava nu por acaso. Talvez até fosse louco. Talvez até fosse um viciado. Mas, sua nudez era simbólica. Era a nudez de um homem sem pão, de um homem cujas portas tinham sido fechadas pelo vento da indiferença. Era um homem que perambulava pelas ruas em busca de proteção, embora estivesse desprotegido.

Era um homem querendo ser notado, mas que ninguém notava. Naquele homem, vi refletida a nudez de todos nós que indiferentes mantemos as portas da dignidade fechadas para quem procura o pão.


( por Giovani Miguez )



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