Pequena antologia


OBSTÁCULO Era enorme a pedra do caminho. Sobre ela, sentei e relaxei. Naquele raro instante, sozinho, me entreguei.



TEMPOS


Ele não acreditava nas ilusões que o tempo provocava. Em seus ceticismo, ignorava a força das atuações que pelo real transitavam.


CURA


Em sua realidade obscura, era atormentado por sombras. Ao combatê-las, as fortalecia. Demorou compreender que a cura não era pelo enfrentamento, mas pelo acolhimento da patologia.


RESISTÊNCIAS


As nuvens eram densas. Uma amargura imensa pairava sobre nossas cabeças. Por sorte, o sol com sua presença iluminada não se intimidava e aquecia nossas consciências nubladas.


DE LÌRIOS


Aqui jaz um sonho findo, um descanso verdadeiro, um abraço delirante em mortalha de lírios frescos e perfumados. Só quem viveu o dia derradeiro compreende sem delírios, o significado.


A VELHA CASA


No teto da velha casa sombras antigas me inquietam. As noites longas agitam minhas asas enquanto a mente se aquieta. Adormeço sob histórias que não vivi, mas que são partes de mim. Meus sonhos são testemunhos, registros daquelas marcas no teto da velha casa.


RUA DOS INVISÍVEIS


A rua ao lado era cheia de fantasmas. Assombradas, as crianças a evitavam. Por lá histórias se acumulavam, ninguém ousava desafiar aquelas almas que, invisíveis, ocupavam as marquises da rua dos horrores. Eram fantasmas vivos com suas dores, abandonados à própria sorte, à espera da morte.



NÓS, A SÓS.


Imaginei uma outra história, um outro relacionamento. Entre nós, entretanto, nada além de fúria, de indiferença e distanciamento. Você é prosa. Eu, poesia. Para você a realidade é dura. Para mim, pura magia. Você quer ternura. Eu, tortura.

DESENCONTRO


Não consigo mais estar contigo mesmo habitando o mesmo ninho. Nos transformamos em estranhos trilhando o mesmo caminho. Quando olho no espelho, não me reconheço mais. Onde foi parar aquele jovem rapaz que em nada se parece com este velho?



VERSO VAZIO


Uma vida, ainda que vazia, pode ser repleta de poesia? Claro que pode! Afinal, quanta dor o vazio esconde?

TRISTEZA TÍMIDA


Choro em segredo, pois minha tristeza é tímida. Vivo escondido e com medo do que vão pensar das minhas fraquezas, por isso amargo tanta incerteza sobre essa angústia que me intimida. Minhas lágrimas se escondem nas pequenas alegrias.

(breve antologia pascoal)