Perdro, eu e a jacobice

Atualizado: 28 de Nov de 2020

( conto )


Sempre disse que era cristão. Mas, um dia, conheci um cristão de verdade, daqueles que aceitaram Jesus Cristo como seu único e verdadeiro Salvador. Isso mesmo, Salvador com "S" maiúsculo para que não paire dúvidas. Daí, passei a duvidar da minha condição de cristão.


O nome dele era Pedro. Ele, fervoroso, ia ao culto todos os domingos, destinava dez por centro do seu salário para a igreja − cristão de verdade paga dízimo!− e vivia para divulgar a palavra do Cristo, embora boa parte das pregações dele eram fundadas no velho testamento (confesso que nunca entendi isso).


Mas, enfim, Pedro era cristão. Eu, não. Era, no máximo, um iludido que achava que bastava ser honesto, trabalhar com afinco, não fazer o mal e ser solidário com os demais. Mas, não, nunca aceitei Jesus e, pasmem!, jamais dei um centavo para qualquer igreja.


Assim, envelheci. Pedro também. A morte estava chegando. Eu sentia. Pedro, era dois anos mais jovem, mais ativo e empolgado com a vida. Provavelmente, pensei, viverá alguns anos a mais que eu. O álcool, mesmo moderado, talvez tivesse abreviado alguns anos da minha vida. Mas, enfim, sentido a morte, chamei Pedro. Estava preocupado.


"Não quero morrer, Pedro, sem a certeza que irei para um bom lugar" − eu disse.


Ele, pensativo, olhando nos meus olhos com aquele ar de que já tinha visto muitas cenas como esta, sinalizou com a cabeça e, pegando na minha mão, foi enfático sobre a necessidade de "aceitar Jesus".


Balancei com a cabeça que estava preparado.


Então, Pedro, agora Pastor, elevou o tom e com uma firme oração pediu a Deus que perdoasse todos os meus pecados e quase gritando perguntou:


"Irmão, aceita Jesus como seu único salvador!?"


"Sim, aceito." − afirmei convicto balançando a cabeça afirmativamente.


Senti naquele momento que poderia partir, pois para Deus, aquele gesto de arrependimento e salvação tinha valido por toda uma existência digna, porém, vazia do verdadeiro sentido que era aceitar Jesus.


Pedro morreu dias depois deixando viúva, dois filhos, mais uma mulher e dois filhos fora do casamento e uma disputa por um espólio milionário não declarado. Mas, pensei, ao menos aceitou Jesus. Sorte dele. Sorte minha. Agora vamos nos encontrar com Jacob lá no Reino do Senhor.




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