Poesia é encontro

O homem é um "animal poético"

que esqueceu da poesia que o habita.

Gostaria de propor para você, na crônica de hoje, uma pequena hipótese est(ética), uma proposta teórica que tem conduzido meu ethos poético, minha antropologia poética e que animou toda minha produção poética desde 2016.


Imagine-se caminhando nas ruas. Você se depara com um morador de rua negro, sujo, alcoolizado e com mau cheiro. Sua reação a esse encontro é sua ética: pena ou desprezo, pouco importa. Mas é uma reação intrinsecamente motivada pela estética da cena. É sempre assim: nossas reações éticas são condicionadas por nossa percepção estética do mundo. Assim é quando nos apaixonamos, ou quando escolhemos um bem de consumo é sempre uma est(ética) que se manifesta.


A ética está sempre ligada a uma percepção estética. Não é à toa que a palavra ética esteja contida na palavra estética. Quando percebemos isso, nossa vida se enche de poesia, não importando se estamos felizes ou infelizes, entediados ou animados.


Esse fenômeno est(ético) é o que eu chamo de “poesia existencial”. Uma forma de expressão que tento imprimir nos meus textos já há algum tempo, seja em prosa ou em verso, oral ou escrito. Penso que todo registro humano é uma extensão ética e estética dessa existencialidade que se impõe de forma realista e busca no simbolismo da arte e da linguagem um modo de expressar-se, de ser compreendido, de buscar o entendimento das subjetividades que o tocam.


Assim é a poesia! Ela exige que se sinta. Exige despir-se de muitas convicções, pois a maior parte delas é mero aprisionamento ético e estético. Uma das poucas convicções que tenho é que o direito à poesia deveria ser sagrado a todo ser humano. O esquecimento da poética que nos habita é um crime contra nossa humanidade, é uma forma de degradação antropológica.


Poesia é encontro e o direito ao encontro é o direito fundamental que todo ser humano deveria ter. Falo do direito a encontrar-se com o outro e consigo mesmo no ato simbólico da linguagem. Eis o cerne da existencialidade humana. E a poesia é esse encontro em sua dimensão est(ética).


Por isso, defendo o direito ao encontro existencial por meio da poesia.


Eis o meu manifesto est(ético) existencial.


(Publicado originalmente no site OlhoVivo)



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