Primeiros dias de isolamento

(Dia 1) QUANDO A FICHA CAI. Milhares de mortos depois, enfim a reclusão, a quarentena. Morre, no Brasil, a primeira vítima. E é só o começo. Enquanto o governo brasileiro, por meio do seu Ministro da Saúde, coordena com alguns governadores uma operação de guerra contra o Coronavírus, o presidente insiste que não passa de histeria. Que demente! E a Economia aposta na tragédia para defender as tais reformas que sangrarão os mais pobres da nação. Mas eles, os nobres, os donos Capital, não abrem mão de nenhum tostão do dinheiro que poderia ser fundamental para conter esse mal. Aqui o vírus engatinha, mas já promete ser erva-daninha a crescer com velocidade causando muita dor enquanto o Capitão, do alto da sua insanidade, enxerga perseguição onde deveria haver empenho e cooperação. Do jeito que a coisa anda, ouvi dizer por aí, que quem chegar em dezembro ganha. (17.03.2020) (Dia 2) ABRAÇOS ADIADOS. Já são 17 membros da comitiva presidencial os contaminados. Mais de 5% dos casos oficialmente divulgados, apesar destes números estarem subestimados. Há quem aposte que estamos perto dos cinco mil. Puta que o pariu! Estão brincando com fogo, digo com a sorte do povo, deixando todo mundo sem norte, de cara a cara com a morte. Estamos sendo submetidos a uma pandemia mundial, mas recentemente atravessamos uma epidemia sem igual: o vírus do fascismo. Ele começou modesto, perseguindo um fantasma, o comunismo. Mas era só uma desculpa para o casamento inusitado do conservadorismo com o capitalismo financeiro, consagrado com um golpe sorrateiro que segue acontecendo. Desde então, nos restou a luta, caminhar na resistência, mão com mão, contra essa indecência sustentada por vil manipulação. Quando tudo parecia grave, eis que surge, para nossa agonia, mais um entrave: está estrondosa pandemia, tratada irresponsavelmente como boba histeria, pelo ogro presidente, um irresponsável sem precedentes. Eis que, do nada, nos impediram o abraço, mas aguerridos, apenas o adiamos. E, para mostrar nossa insatisfação com a situação, nos encontramos hoje no janelaço até que nos seja permitido novamente o direito ao abraço. (18.03.2020) (Dia 3) ENDURECER COM TERNURA. Os governos estão finalmente endurecendo. Percebe-se uma leve compreensão humanitária sobrepondo-se a ganância monetária. Economia, senhores, náo se trata de dinheiro, cifras e aplicações. Trata-se de pessoas, de gente humana, de proteger gerações que se cruzam entre as crianças que nascem e idosos que partem. A questão, penso, é que as coisas devem ocorrer naturalmente, a seu tempo, e não desse modo indecente que anda perturbando a gente. A única maneira de atravessar esta pandemia, salvar a economia e garantir dignidade às pessoas que fazem a cidade acontecer é endurecer com o vírus sem se esquecer de proteger as pessoas. Estamos adoecendo não é só pela pandemia, mas pela nossa mórbida agonia, nossa dor emocional causada por todo esse isolamento social. Ainda assim, no meio de toda essa confusão, há muita gente de bom coração disposta a estender à mão aos que não tem a mínima condição de enfrentar essa medonha situação. Vamos endurecer contra a moléstia, mas garantir que se tenha ternura com as vítimas. Vamos nos colocar à altura da nossa condição humana. (19.02.2020) (Dia 4) UMA GRIPEZINHA ESCATOLÓGICA. Imaginem vocês que hoje nosso presidente, aquele demente!, na contramão do bom senso, declarou que se uma facada não o matou, imagine uma tal gripezinha. Mas até aí nada, pois já é sabido que por hábito ele, na sua mentalidadezinha, mente e desmente com uma obtusidade indecente. Enquanto isso, a pandemia, segundo a tal Ligia Bahia, vai dizimar os mais pobres. Quanta escatalogia! Chega a ser irresponsável alarmar essa multidão miserável. De um lado a demência do poder. Do outro, a tal ciência fazendo o coração doer. É muito pânico para pouco penico e muito desdém para tentar não alarmar ninguém. Mas a coisa é séria. Essa gripezinha escatológica, já foi provada, não é arma biológica, apesar do filho do "presidemente" investir nesta lógica insistente de que a China é culpada pela situação criada. Ah, meu Deus! Será que sobreviveremos a tanta incompetência, tamanha falta de prudência e toda essa negligência que assola nossa sociedade tola, incapaz de adotar alguma racionalidade para sobreviver ao caos que se aproxima? (20.03.2020). (Dia 5) POESIA PARA SUPORTAR. Há algum tempo, tenho embebido minha vida em poesia, esperando, com ela, mitigar minha agonia por essa existência afogada em melancolia. Tem dado certo, pois desde que assumi a poesia como remédio, tenho levado o fardo com menos tédio. Por isso, nesses dias de isolamento, tenho aproveitado cada momento para fazer da minha reclusão um permanente sarau, o #saraudaquarentena, um forma de amenizar o mal que essa pandemia traz. Afinal, que mal faz um pouco de terapia poética? São tantos poetas e poetisas em todos os cantos desse mar de encantos e desencantos que não tem sido difícil encontrar companhia para trocar poesia. Quem sabe assim não fica mais fácil suportar o fardo desta existência com tanta indecência e ainda com esta doença que nos impõe sua amarga presença! (21.03.2020) (Dia 6) A PANDEMIA DA DISCÓRDIA. Devíamos estar unidos nessa urgente corrente para atravessar essa pandemia, mas que agonia, ver essa gente agindo sem qualquer escrúpulo, estocando o que não é necessário, comprando remédio que faz falta aos outros e espalhando notícias mentirosas. Que atitudes vergonhosas, de pessoas inescrupulosas. Onde vamos parar? O caos que se aproxima devia nos manter alinhados, mas alguns são desgraçados, querem aproveitar esse mal estar para fraudar, mentir, enganar e provocar ainda mais dor. Quanta falta de amor! Isto é desesperador. Por favor, minha gente, deixem de lado esses desalinhamentos éticos e vamos fortalecer bons sentimentos para suportar este isolamento a que estamos sendo submetidos. Vamos caminhar unidos, para não nos pegar, em poucos dias, perdidos. Não vamos agir como o demente que nos dirige. É hora de somar e não dividir; liderar e não mentir; não brigar, interagir para fortalecer laços, mas, por favor, sem abraços. Não é hora de criar dificuldades para estados e cidades, apenas para mostrar quem manda por pura vaidade. É hora de união, sem discórdia. Não podemos caminhar na contramão deixando nossa gente perdida, sem orientação. (22.03.2020) (Dia 7) ISOLADOS, MAS LIGADOS. O dia amanheceu estranho. O presidemente, aquele transloucado, resolveu autorizar a suspensão temporária de contratos de trabalho. Sim, é sério! A crise nem começou e o homem que deveria garantir o emprego optou por agir em favor dos empresários. Foda-se os assalariados! Seria um tsunami de demissões, mas no decorrer do dia, ele arregou. "Fui mal interpretado", alegou. Mas não foi não, estava apenas sendo ele mesmo e agindo a esmo, sem pensar, tentando mais uma vez ludibriar ao invés de governar. Aproveitou do nosso isolamento e abusou deste difícil momento. Covardia nos impor a mais essa agonia. Felizmente, apesar de isolados, estamos ligados. Apesar de entristecidos, estamos decididos a enfrentar este alucinado para não sofrer ainda mais as consequências dessa pandemia. | 23.03.2020 (Dia 8) PRONUNCIAMENTO INDECENTE. Hoje, não obstante aos esforços do ministério da saúde, assistimos por um instante um louco pronunciamento em que abominações foram proferidas não considerando a gravidade da situação. Criminoso. Caso de interdição. Não temo outro adjetivo para nos referirmos neste momento ao que assistimos na televisão. O presidente, em um pronunciamento indecente, disse em alto e bom som que ele não entende a gravidade da situação, que vive completamente fora da realidade. Se quem o apoiava já carecia de sanidade, agora se tornou cúmplice das milhares de mortes anunciadas. Bolsonaro é uma afronta à inteligência, um inimigo da ciência, um ser sem qualquer decência. O caso está perdido. Meu coração, partido. Ele precisa ser impedido. (24.03.2020) (Dia 9) O RECUO DOS ACUADOS. Diante do sinistro pronunciamento de ontem do presidente, assistimos um ministro da saúde, outrora implacável, acuado. Apesar de contrariado, fez um pronunciamento amenizado. Até alegou que a quarentena "pode" ter sido exagerada. Governadores reagiram: "não é momento de recuar, manteremos o isolamento", da população e do próprio presidente. Isolado, Bolsonaro ladra e ameaça a morder, mas dizem que no fundo já não consegue entender que já começou a perder o rumo, o prumo. É o presidente do absurdo. Dizem que, impedido de governar tentará um golpe, mas no fundo mesmo só lhe resta a sorte de renunciar. O país está perdido, tendo que enfrentar um vírus, uma pandemia, e ainda viver a agonia de ser governado por um verme. Que melancolia! Seu vice andava recolhido, mas diante do absurdo disse com refinamento: o governo, apesar do presidente, reconhece a importância do isolamento (do presidente, espero!). O ministro da saúde, para o nosso desespero, será demitido e no seu lugar, dizem, diante do colapso político, mais um militar, um almirante. Daqui do meu mirante, olho, paro e penso: tudo isso porque um meliante mineiro não aceitou a derrota e desde então fomos levado à bancarrota. Estamos acuados, com medo, mas espero que não recuados, pois há males a serem enfrentados. (25.03.2020)

(Dia 10) EU NÃO SEI O QUE DIZER.


Se o pronunciamento do presidente já me deixou perplexo, o recuo do ministro da saúde foi ainda mais sinistro. Como se não bastasse esses dois fatos absurdos, ontem o planalto, do alto da sua loucura lançou um vídeo em que dizia "O Brasil não pode parar". Como assim? Não é isso que vai acontecer como o vírus começar a matar em escala continental? O que pretende a família Bolsonaro, afinal? Eu digo, sem medo de errar: cindir de vez o tecido social. Colocar brasileiro contra brasileiro, pela glória do dinheiro, do capitalismo financeiro. Mas, por qual razão, eles insistem em seguir na contramão, do resto da civilização? Loucura. Eles não perderam qualquer resquício de compostura e transformaram o Planalto em um hospício. A irresponsabilidade do presidente já encontrou eco na nossa gente. Se estava dificil enfrentar a pandemia, imaginem conciliar esse momento com essa ameaça de anomia! O Brasil pode parar. É claro que pode. Parar para enfrentar a morte. Não podemos nos arriscar a contar com a sorte. O presidente perdeu o norte. Não podemos embarcar nesse encontro irresponsável com a morte. Não deixemos esse desnorteado nos enlouquecer. Não sei mais o que dizer. (26.03.2020).

(Dia 11) A FORÇA DA IGNORÂNCIA.

Estamos a deriva? Há quem diga que sim, mas penso que pode não ser bem assim. Apesar do recuo do ministro e desse clima sinistro entre os entes por conta da ignorância do presidente, temos autoridades com algum nível de sanidade. Mas, não duvidem da força da ignorância que nos divide. Faltou bom senso? Sim, mas em uma crise desta natureza, eivada de tanta incerteza, faz falta o velho e bom consenso. Enquanto alguns pedem para ficarmos em casa, o alucinado insiste nesse argumento que nos arrasa. O Brasil não pode parar? Claro que pode. O mundo mostra que pode. A ignorância é destrutiva. Tomem cuidado, não entremos nesse barco furado. (27.03.2020)

Seguiram-se dias de silêncio e reflexão.


Indignação. O presidente mais enlouquecido. Soluções que se arrastam. A pandemia avança prenunciando uma matança em muitos cantos do mundo. O ministro da saúde, que não é santo, sob ameaça de demissão. Militares, dizem, contornaram a situação.


Dia 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22... Dias doloridos e cinzentos. Silêncio gritando aqui dentro. Minha vontade de escrever oscila, minha poesia vacila, Espasmos soltos. Alguma leitura me vacina. Alguma beleza me fascina.


Às vezes a fagulha criativa é frágil e incapaz de acender a pira poética e lançar luz sobre a escuridão que afoga nossa poesia em uma intensa agonia que nos desequilibra.

A dor que me corta nesse momento de desalento não importa, pois sentimento assim não conforta. Estou esvaziado, experimentando uma certo torpor, precisando de afago e não de mais estrago.

Dai concluo: O isolamento social não precisa ser um isolamento emocional. Estamos juntos nessa quarentena, apesar ilhados. Acordamos cheios de incerteza, ainda assim repletos de gentileza. O mundo parece estar louco, mas isso tudo nos tornará um pouco melhor, se soubermos contornar o pior da crise.

(Dia 23) Vontade de retomar o texto. Escrever poemas da quarentena, ler poetas em quarentena


Tudo isso vai passar.


(08.04.2020)




0 visualização