Quase Histórias, resenha por José Huguenin


Ter seu livro publicado é algo que não tem preço. Mas, confesso que tê-lo resenhado por um poeta da cepa de José Huguenin, autor de Koiah, é um presente ao mesmo tempo emocionante e "responsabilizante". Huguenin compreendeu o que me move, o que me fez desaguar na poesia.


Por ser poeta e também cientista ele compreendeu minhas necessidade estética.


Leiam a resenha que me emocionou:


***


As quase histórias de Giovani Miguez


Fico sempre encantado com os encontros que a poesia nos proporciona. Em um destes encontros, ela, a poesia, me levou a Giovani Miguez, volta-redondense radicado na maravilhosa cidade do Rio de Janeiro, e a seu texto, sua estética.


Miguez fala em ser “filosofante” e seu livro “Quase histórias – Est(éticas) existênciais (Ed. Autografia- 2019)” é, de fato, uma espécie de tratado filosófico-poético. Assume no livro que a escrita, a poesia, o estrutura emocionalmente, sendo, para ele, terapia. Sua “Pequena hipótese est(ética)” na orelha do livro nos leva a refletir sobre a força da estética na construção da ética humana. Com a simbiose destas duas palavras, cria quadros cuja tinta é a linguagem, pintando cenas curtas de longuíssimo alcance. Os textos curtos têm a estrutura dos chamados micro contos, mas seus “Aforismos existenciais” são quase histórias. Em muitos textos não encontramos a ação, típica de contos, mas uma reflexão “filosofante” profunda, como no texto “Perdi-me em convicções” (pág. 16) que coloca a falta de dúvidas como criadora de convicções vazias. A vida é o tema central das quase histórias e, em dado momento, nos diz que o sentido dela, da vida, é o propósito que nós a damos (“sentido da vida, pág.46).


Identifiquei-me com o exílio da poesia vivido por Miguez em sua juventude. Enxerguei-me menino, pelas ruas da Floresta, a imaginar-me poeta, escritor, lembrei-me da timidez a ser vencida e dos fatos que tentaram me convencer de que a poesia era inútil frente a realidade bruta que por vezes de impunha. Daí, ao escolher estudar física, uma outra estética se apresentava, seguia linhas de campo, até que um quase acaso me fez voltar a escrever poemas. Nesse ponto, vi que filosofia fragmentária que o autor de “Quase histórias” nos oferece não é sobre si ou sobre suas próprias angustias, mas sobre a existencialidade humana e penso ser impossível um leitor desta obra não (re)descrobrir-se em suas linhas.


No texto “Era poeta e não cientista” (pág. 26) vivi, um pouco, os dois lados. Meu dia-a-dia é quase sempre buscar explicar algo. A obra de Deus está oculta também nas entrelinhas da natureza, assim como a espiritualidade permeia a escrita de Miguez até que salta, direta, pujante, em “Deus é realidade” (pág.36). O cientista tenta explicar. O poeta tenta expressar as belezas da natureza e as contradições humanas. Em ambos os casos, a existência é a ponte que liga tudo a um propósito que certamente há de se ter, pois Ele não colocaria as estrelas em movimento, “percorrendo o firmamento em carrossel”, como escreveu Chico Buarque, sem um destino certo.


A segunda parte do livro, “Est(éticas) existenciais” (pág.50), é composta por poemas. Giovani escolheu escrever Haicais e Aldravias, formas curtas e diretas de se versificar. Esses formatos foram magistralmente usados tanto para expressão harmônica que a sonoridade das palavras cuidadosamente garimpadas provoca, quanto para exemplificar de forma incisiva seu tratado est(ético). Aqui, os poemas curtos são cortantes. Vão na ferida. Tocam nosso coração e mente. Um exemplo rico da ética que surge da estética poética de Miguez, que minha visão leitora escolheria como ponto convergente de sua obra, é a aldravia número 11 (pág.54)


“pouco

importa

quem

se

importa

importe-se”


E como a existência humana não é isolada, em que pese as individualidades, a preocupação com o outro, a inconformidade com as injustiças sociais não poderiam estar ausentes neste tratado. Haicais nos fazem refletir sobre crimes humanitários, como o primeiro de uma pequena série dedicada aos pixotes que o autor encontra todos os dias (pág.77)


“na sarjeta

Menino brinca de ser feliz;

Felicidade sarnenta”


Saímos da leitura destas “quase histórias” quase saciados. É que a poética da obra nos deixa com aquele gostinho de “quero mais”. Felizmente, como aponta em seu “Epílogo”(pág.85), se na juventude enterrou sua alma abandonando seu texto, duas décadas depois, sacudido pelas dores da vida, Miguez nos tranquiliza:

“meus versos acordaram.

e agora? só quero escrever.”


Tem muita poesia por vir!


***


José Huguenin, tenha certeza, vem muita poesia por aí. Como disse Vicente Mello, nosso amigo em comum, estou e um momento de hiperatividade poética.


Minha gratidão pela bela e generosa resenha.


Ah, e não deixem de ler a poesia de José Huguenin!





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