Secretária

( crônica )


A secretaria da repartição, dona Eulália, era sempre a primeira a chegar. Tinha esse hábito. Gostava do silêncio e do odor da repartição quando as portas eram abertas e o ar-condicionado ainda não tinha dissipado aquele cheiro de papel, traças e mofo que para muitos empesteava o ambiente. Mas, para ela era reconfortante. Sua alegria, entretanto, durava menos de trinta minutos. Logo, os perfumes misturam-se e falatórios tomavam conta do ambiente deixando-o, segundo ela, hostil demais.


Ela estava ali há muito tempo. Já podia ter se aposentado, mas aquele lugar era sua vida. Os filhos estavam todos criados, casados e morando em cidades distantes. A viuvez era sua companhia há muito tempo. Nunca foi namoradeira. Dizia ser mulher de um homem só. Por isso, quando Euclides faleceu, ela entregou-se ao celibato por respeito aos 30 anos de casamento. Sua vida, portanto, era o trabalho e as atividades no centro comunitário do bairro, onde ensinava corte e costura. Era seu hobby.


Todos gostavam dela. Sua idade era desconhecida, mas havia apostas que estava bem próximo dos setenta, pois ela sempre dizia: “Uma hora saio daqui expulsa!”, referindo-se jocosamente ao limite de idade em que todo servidor público deve obrigatoriamente se aposentar.


Dona Eulália era tão antiga na repartição que, Onofre, o fiscal mais antigo, disse que quando chegou ali há trinta anos, ela, ainda jovem, já era veterana. Muito simpática, mas discreta, a secretaria falava pouco, por isso sabiam pouco da vida dela. Nem aniversário ela comemorava. Sua idade era um segredo guardado a sete chaves. O máximo que sabiam é que ela morava numa charmosa vila no Grajaú, ia trabalhar todos os dias de 422, almoçava sempre em uma marmita de alumínio muito charmosa e só bebia água em temperatura ambiente para não prejudicar a voz.


Um dia, Eulália foi encontrar-se com Euclides. Como todo arroubo da vida, foi sem avisar, discreta e silenciosamente. Tudo que sei dela é o que está escrito numa placa de bronze na entrada da repartição. Ao lado, uma foto dela ainda jovem em sua clássica Remington 150, finalmente aposentada, mas que é mantida no hall e faz parte do memorial feito para homenagear a secretária das secretárias.




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