SUSTENIDOS e alguns desafinos

Este caderno nasceu durante o carnaval de 2020.


Nasceu de uma necessidade de permitir que a música – seja em seus sustenidos ou desafinos - fosse de algum modo incorporado na minha forma de sentir o mundo.


É, ainda, um caderno inacabado, um poemário que não se esgotou.


Entretanto, resolvi disponibilizá-lo aqui, no blog, para os que me seguem.



Leia também:

Os poemas não se referem, necessariamente, às músicas que ouvi no momento. Mas, todos, sem exceção, foram inspirados pelo que senti ouvindo as músicas ou, em alguns casos, os desafinos da vida, desse momento tão delicado em que estamos vivendo.


Espero que gostem.


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POEMÁRIO INACABADO

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sustenidos


teus sustenidos

doem na minha face

são sentidos

em total silêncio.

apesar do furdúncio

da tua cantoria

não me abrace

não quero sua alegria

pois, os desafinos

dessa euforia

doem e destroem

toda a sensação

que as bofetadas

deixam no meu

coração.


desafinos


desafinamos feio.

desafiamos aquele demônio.

agora, o jeito é enfrentar

este pandemônio

sem receio.


eles estão no poder

mas, não vamos nos abater.

acontecem os desafinos

mas, não é o destino

é só um cretino

subestimado.


a democracia

esta nossa tentativa

de harmonia

está ativa

apesar de combalida

mas não precisaremos

de cloroquina

apenas de coragem

para arrancar essa fuleragem

travestida de autoridade.


a pandemia acabou

ouvindo Criolo


a pandemia acabou

para os milhares que padeceram

se ar.


a pandemia sufocou

não só a economia, mas a alegria

o amar.


a pandemia ensinou

que não há limites para a tirania

dos que só pensam em matar

aniquilar

odiar.


a pandemia acabou em sufoco.

estou rouco de gritar com toda essa gente

que faz pouco da nossa gente

tão carente.


estou cansado do oco presidente

que zomba da gente, mas não tomba

segue em frente, matando

apesar nossa tromba.


os leitos não choram

ouvindo Emicida


os leitos vazios

gritam: eles se foram!

mas, não choram.


vazios

estamos todos nós

a sós

pelos que se foram

pelos que agora choram

entre nós.


os leitos vazios

gritam: eles se foram

mas, não choram.


a morte

ronda a todos nós

essa foz

de lágrimas deságua

no nosso norte

de mágoa.


pelas mãos

ouvindo Wando


minhas mãos

têm razão

quando acariciam

teu corpo

tentando chegar

ao cerne do teu

coração.


é carinho que chama

não esquece.

é carinho essa chama

que esquece.


minha emoção

sabe

que é pelas mãos

que se tece

o tesão

essa sensação

que inebria

o coração.

senso incomum

lendo Lucas Viriato


posso estar em dois lugares

ou mais

ao mesmo tempo

sabia?

no Brasil, na Índia

onde mais?


vai depender

sempre

do como entender


o espaço

o tempo


não como mera

idiossincrasia

mas, como possibilidade

metafísica, como realidade

para além do senso comum

como verdade

como gesto de espiritualidade

como senso

incomum

como criatividade.


desejo de cantar

ouvindo Maria Bethânia


tua voz modula minh'alma

que não se acanha e faz vibrar

meu desejo de cantar

como um sabiá

seresteiro

lá no pomar, nalgum

abacateiro

ou, quem sabe, num

jambeiro

alto, tão alto

que nem cabe nos sonhos

daquele rapaz

faceiro

mas, incapaz

de alçar seus voos para um lugar

qualquer onde haja paz

para se cantar sem ser alvejado

em nome da tal paz

que todo mundo diz ter desejado

mas só faz

adiar.


os poetas

ouvindo Reginaldo Rossi


nem

todos os poetas

são melancólicos.


há os que apenas

são alcoólicos

e há os que, também

são insólitos.



apenas um rapaz

ouvindo Belchior


a sombra do arbusto

escondia meus soluços.


eu, ali, sentado

parecendo estar relaxado

estava mesmo

fatigado.


era apenas um rapaz

duro, arredio e sem posses.


um dia, cansei

de ser escravo da lei

rebelei-me

voei.


agora, livre estou

do arbusto, nada restou.


nem fácil, nem grande

ouvindo Chico César


nada fácil vem grande

é preciso plantar

cuidar

regar...


nada grande vem fácil

é preciso cultivar

esperar

desejar...


ainda assim, parem

de romantizar

a espera.

é injustiça

que nasce da cobiça

que exaspera

que fere

que atiça

que interfere

no caminhar.

garrafa

ouvindo Ney Matogrosso


lancei uma garrafa

ao mar.


não era de amor

ou socorro.


era apenas uma garrafa

destinada aos náufragos

como eu.


uma garrafa sem rótulo

mas abarrotada de silêncio

com papel em branco

e um lápis.


quem sabe um dia

ela retorne, não mais

vazia

mas, com alguma

poesia.


onda no cais

ouvindo Milton Nascimento


na arrebentação

do mar

no cais, meu coração

vibra no dedilhar

do violão

tocando aquela canção

sobre amar.


da areia

ouço o canto

da sereia

que com seu encanto

tece uma fina teia

um manto

sob o céu de lua cheia.


flerta o luar

com as ondas que chegam

enchendo a praia de mar

e levam

a areia da praia

para algum lugar

onde as canções não chegam,


a guerra sempre erra

ouvindo Gilberto Gil


nunca há acerto no que não é certo. o homem, esse lobo de si mesmo, insiste com seu dedo em riste.


não desiste da guerra. diz que está lutando, mas não está. pois, quem luta não quer vencer, apenas evita a derrota.


na guerra, a rota é a vitória, o massacre, nunca a defesa. uma guerra é sempre datada, tem hora para começar e terminar.


mas, a luta se faz a toda hora para podermos sobreviver, apesar do luto dos que no caminho vieram a padecer.


vamos à luta, não à guerra.


o menino do barril

ouvindo ao noticiário


em um barril

( barril! )

o menino era torturado

ali, abandonado, humilhado...


comeu os próprios dejetos

era banhado

com água fria e agua sanitária...


que pai faz isso?

quem se cala diante disso?

seres abjetos!


puta que o pariu!

(perdão, mas saiu...)

faltam-me palavras de tanta revolta

que sinto.


ao invés de ternura,

tortura!

ética lírica

não ouvindo nada


palavras foram surgindo

uma a uma

eu, no mundo agindo.

coisa alguma fazia sentido

mas eu, cretino

queria fazer lirismo

por isso, ignorei o abismo

para poder rimar

romantizar

fantasiar.


era estética

minha vã poética

sem nenhuma ética

portanto, vazia

cheia de rima, mas desprovida

de vida

de verdadeira poesia

superficial

poluída

desde o manancial

da origem

não mais virgem

causando vertigem.

rebentação

ouvindo Lulu Santos


a onda, quando chega

é furiosa

tão poderosa que carrega

para as profundezas

tudo que destruiu com sua completa

falta de delicadeza.


é da sua natureza

arrebentar-se e arrebentar

as rochas granuladas

por toda extensão

da praia.


na fúria da onda

na maré que ronda

sobre a praia

a arrebentação

se espraia

no colchão

de areia.

insolvência

ouvindo Noel Rosa


devo

ao mundo que deve

ao universo que deve

ao inverso que deve

ao profundo

que, insolvente, não quer

pagar.


devo

não nego, nem pago

pois estou cansado

demais...


devo

estar estressado

pois, vejo nos meus olhos

que não aguento

mais.


ser nação

ouvindo Candeia


quando a cultura

se perde

uma nação inteira

fica órfã.


o samba

o sertanejo

caramba!

quanto desejo

de aprumar esse povo

bamba

que apesar do pelejo

pardo, preto e vermelho

vê-se colonizado

por esse hábito velho

esse ensejo de ser

americanizado.


ah, nação brasileira

cultive sua própria

história

saia dessa ribanceira

valorize sua própria

memória.



perto

do

céu

um

aperto



saudade

que

bate

mas

é

tarde



semitonou

foi-se o rouxinol

desafinou


inundação

ouvindo Milton Nascimento


meu silêncio

não reflete a falta

mas, uma inundação

de palavras que provoca

afogamento

impede a expressão

daquilo que jorra

no meu interior.


negações

ouvindo Paulinho da Viola


negue

se for o caso

teu dinheiro

suado

mas, jamais

negue

tua atenção

aos que só querem

teu afago

ser

como você

respeitado

cidadão.



emaranhados

ouvindo Almir Sater


sem pressa

ando, ando, ando

devagar

bem devagarzinho

pelos mesmos caminhos

a vagar

procurando

desvios

que não existem

pois, são daninhos

os atalhos

que nos impedem

de trilhar com precisão

mesmo os descaminhos

que formam

o emaranhado de fios

que chamamos

vida.



café

ouvido Tim Maia


no café

um fascista

gritava

ao meu lado.


eu, estava

meio sem fé

desolado

precisando de

café.


mas, sai

não aguento mais

fascista,

mesmo quando o café

é o único jeito

de dar um up na minha

fé.


fui beber

whisky com gelo

para esquecer

esse atropelo

no meu café.


aldravias freirianas

ouvindo Wilson Simonal



estar

no

mundo

exige

um

rumo



ser

neutro

ser

noutro

sentido

enrustido

pinche de Gaia

ouvindo Cio da Terra


uma hora

dessas, gaia

se enche da gente

e diz: sai fora,

não demora,

cansei!


quanta solidão?

ouvindo Gregorian


é sonho ter solidão

plena

mas, solidão

nenhuma

é uma dura

pena.


daí, o poeta

Carlos Galego

disse que solidão

é prosa.


e eu

que sempre pensei

que fosse glosa

do verso que não

declamei.


poema fora do eixo

ouvindo Nara Leão


sempre irritei-me

com o hábito que alguns

letrados têm

de problematizar

poemas.


sobretudo, os alheios

àqueles que mal sabemos

quais são os anseios

que moveram

a pena.


por isso, deixo

o poema solto, livre

de qualquer pretensão

de enquadrá-lo

pô-lo

no eixo.


cada qual

com seu dilema

no o poema

que lê.



no

grelo

teso

gralha

todo

peso



engulo

choro

se

te

anulo

ogro


meu dia!

ouvindo Fernanda Abreu


meu dia

mal começou

e já ardia

no lençol

o sol.


nem o café

descia.


era tanto calor

que suor mal escorria

e já virava vapor.


nem a fé

trazia alegria.


meu dia

mal terminou

e já sabia

que no lençol

arderia.


canta canta

ouvindo Martinho da Vila


a Vila tem muitos poetas

a vila tem samba

uma rapaziada esperta

uma rapaziada bamba

que canta

canta alto, canta forte

que até na dor encanta

pois, se depender da sorte

não encontra prumo

morre na praia, sem norte

vivendo um viver

póstumo.

na Vila de Noel

canta-se de dia, canta-se de noite

porque mesmo sob açoite

na senzala

a rapaziada cantava

gingava

numa alegria

que até dor que ardia

escondia

e deixava a tristeza

pra lá!


ruídos

ouvindo os barulhos do mundo


o mundo anda

muito barulhento.

o silêncio, cada vez

mais raro,

desapareceu.


até o pensar

anda causando-me

náuseas.


os ruídos no meu universo

impedem-me de relaxar

deixar o meu verso

decantar.


está ruindo

em agudos estampidos

toda a minha fruição.


emputecido

ouvindo Arnaldo Antunes


não gosto de recados

mas, hoje estou sem recatos


por isso, preste atenção no que digo:

se minha ladainha é tão ruim

por que me segues?

não seria melhor que negues

meu escritos?

livrar-se este castigo?


peço-te perdão

pelo tom, mas espero

que, assim, áspero

cesse toda a confusão

entre nós.


de um lado, eu

escritor

só quero verter

dores

do outro, você

leitor

não me imponha

pudores.


emputecido?

estou, claro que estou

pois só quero ser

esquecido

pois, compreendido

nem sempre sou.



em

versos

protesto

verto

meus

manifestos



em

cada

panfleto

com

verso

flerto



deus meu

ouvindo Fábio de Melo


não

não sou ateu

só não acredito

neste deus

teu

forjado

pelo frágil Eu

que faz da realidade

espelho da nossa

vaidade

tentando ser espiritual

porém, aprisionado

ao material.



no samba que toca na sacada do vizinho uma solidão pipoca



no meu domingo

na serra que alto grita

coração é bingo



canta alto

sabiá, seu safado

é assalto!


um nó

ouvindo meu inconsciente


um viver

sonhado atravessou

minha noite

impondo tanta dor

onde eu só queria

tecer amor.


um nó

que na garganta

se formou

fez da vigília pó

e agora, acordado

sinto, mas não

acabou.



na

pele

ferve

minha

verve

caminha



gotas

que

orvalham

folhas

não

falham



desafagos

ouvindo John Neschling



ele estava lá, todos os dias, sentado à espera de um afago. mas, nossa insolência cristã só sabia estender a mão com alguma esmola para evitar dizer:


"menino, não amola!"


um dia, por falta de afagos, o menino acabou morto para não causar mais estragos.


não esmolou mais ninguém.


e ninguém amolou-se.



na fonte do desejos

sonhos não conquistados

não serão pescados



a Karol Conká caiu

todo mundo riu, mas

e o Brasil?



viver

sem paz

não traz

prazer

pombaleante

ouvindo Duo Brasil Moreno


na marquise do velho prédio, onde outrora funcionou um prestigioso jornal, um velho pombo, doente, cambaleava em busca de algum farelo para saciar sua solidão.


passavam apressados os homens da comunicação. mas, ali, naquele canto, o pombo era apenas uma triste decoração da cidade que foi sendo esvaziada.


lançar uma profunda escuridão naquela triste situação era, ao que parece, a solução para apagar aquele ser que, pombaleante, insistia em aparecer.


o velho da praça

ouvindo Chico Alves, Paranauê


o velho guardava

a praça

guardava também

o tempo

que chegava

partia

que chorava

sorria.


ali, há anos

a praça e o velho

eram como amantes.

mas, o espelho

não era

mais o mesmo

era outro

menos lustroso.


o velho

era a praça

a velha praça.

a praça

era o velho

da praça.


cão de rua

ouvindo Elis Regina


um cão, faminto

cara de cão sem dono

no meio daquela

turba

daquela gente na rua

sob a lua, sem casa

desesperada

nua.


ainda assim, o cão

está ali, sôfrego

partilhando a fome

pelo afago

no seu coração

canino

de bicho leal

naufrago

ladino.



na pena solta

minha revolta desempena

vira poema



ser poeta

fazendo do poema luz

como me seduz!



em cada linha escrita

meu poema não se emenda

cada verso uma fenda


ainda em processo,

sigo entre sustenidos e dasafinos...


este caderno não acaba aqui.


Giovani Miguez




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