Talhos Existenciais

Atualizado: 14 de mar.


OU, DA POESIA QUE CORTA A CARNE, SANGRA E EXAURI O EU


DA POESIA COMO TALHO


A poesia corta minha carne e deixa exposto meu espírito. Nada é mais visceral em mim que esse manancial que nasce da sangria de uma alma que só existe no desespero e na angústia de uma vida que precisa ter algum sentido. Mas, pergunto: para um poeta que busca na poesia concretizar sua existencialidade, pode o labor estético dar à vida algum sentido real?


Essa é a pergunta que me persegue desde que iniciei minha imersão poética compulsória. Fui identificado por alguns como um poeta existencialista ou como signatário de uma poesia existencial de caráter melancólico. Nunca neguei, mas também nunca assumi essa marca; ao menos até o presente momento em que passo a limpo esse meu caminhar pelo universo das palavras.


Minha poesia, sempre visceral e sem qualquer esmero estilístico, nunca deixou de ser um talho na minha existencialidade ética e estética. Cada fragmento, aforismo, poema ou texto nunca foi mais que cortes, talhos, por onde era possível deixar sangrar as sensações de uma alma angustiada e desesperada. Mas, tanto a ideia de angústia como a de desespero nunca gozaram de nitidez conceitual nesse meu percurso entre tantas agonias.


Talvez por isso, até aqui, minha poesia seja não mais que arremedo de um eu-lírico impulsionado pelo medo de viver uma vida desprovida de sentido. Não à toa, o impulso criativo que redescobri tenha nascido nas incertezas de um divã e sempre, de algum modo, o mote das minhas sessões de terapia sejam aquelas inquietações que conspiram entre si e, às vezes, contra mim na minha escrita.



Assim, acho justo recuperar neste ensaio algumas reflexões sobre meu percurso estético, ou melhor, sobre esse talho que nada mais é que uma poética - talvez um projeto - que corta a carne, sangra e exauri o eu que grita por realizar-se como si mesmo na experiência estética e ética de uma poesia que também é anti-poesia e, sobretudo, é ato de existir, de agir no mundo. Por isso, quase sempre engajada e em alguns momentos absurdamente panfletária e destituída de qualquer lirismo.



DO NASCIMENTO DO ANIMAL POÉTICO


Aqui há um ponto de inflexão necessário. Pois foi em 2016, então com 38 anos, quando fui engolido por um vendaval existencial, que percebi que algo em mim estava adormecido, represado, encoberto por uma sombra até então não percebida, mas que me causava uma incômoda instabilidade. Eu estava doente, imerso em uma profunda patologia da alma.


Entrei em colapso. Senti-me enganado por mim mesmo e pelo mundo em que depositei tanta energia para a construção de um eu que não correspondia às minhas expectativas. Naquele momento, fui tomado por uma consciência, ainda parcial, do meu desespero diante de uma realidade opaca.


Descobri que uma alma agônica, ora melancólica ora excitada, estava no controle da minha existencialidade. Era eu ali, mas não era um eu consciente. Era um eu doente, aprisionado entre paredes que impediam-me de ser simples presença: o passado e o futuro; os altos e os baixos; as certezas e as incertezas; a dor e o despudor. E foi nesse contexto que a escrita me ajudou, a escrita por algum tempo foi a minha terapia solitária, o meu quarto escuro iluminado pela fraca vela de minhas inquietações.


Sempre escrevi, mas nunca com tanta visceralidade, com tanta fúria, com tanta necessidade de encontrar-me nas palavras que iam sendo entalhadas no papel em branco, na tela do meu celular ou do meu computador. Era uma escrita improvisada, uma desesperada, um desassossego que parecia não ter fim. Escrevi por dois anos buscando encontrar minha voz e sem querer descobri que essa voz estava na poética que me atravessava.


Assim, em 2019, depois de dois anos aprendendo a escrever com algumas poesia onde nasceram aforismos, aldravias e tentativas de haicais que deram vida ao meu primeiro livro - Quase Histórias (Autografia, 2019), empreendi uma travessia tentando definir-me e ao final, dei vida ao que chamei de “animal poético” expressão que deu nome ao meus segundo livro - Animal Poético (Multifoco, 2020). Ali assentei 456 poemas extremamente viscerais e sem pretensões. Mas, quando publicados, acabaram dando corpo ao que seria meu projeto poético.


No verso, confesso. Toda minha poesia é confissão; não confessional, mas confissão do meu desassossego, afirmação da minha existencialidade, construção da minha est(ética), reafirmação da minha condição de animal poético.



DA TRAVESSIA EXISTENCIAL


Diante do animal que tinha ganhando vida, restava agora estabelecer uma identidade e definir um caminho. Uma sucessão de crises existenciais haviam dado início à gestação desse animal, mas foi na pandemia que atravessou o mundo e o eu-lírico que ele encarnou e teve que aprender a caminhar na escuridão daquela travessia e lá ser poesia para não sucumbir à solidão de uma existencialidade em conflito entre o ser e o não ser, entre o viver e o morrer e entre o amar e o sofrer.


O primeiro conflito veio com a negação da religiosidade por volta dos 30 anos e se estendeu por uma década, até o rompimento definitivo com a religiosidade positivada do Espiritismo.


A religião, penso hoje, não passa de uma conformação cultural, uma visão de mundo entre tantas outras, tentando estabelecer-se como verdade, mas que não passa de um aspecto cultural tentando ser único, impor-se como fonte metafísica do mundo real, quando não deixa de ser nada mais que uma espécie de materialismo na medida em que tenta dar sobrevida a existência do ego criando para isso narrativas que reproduzem a materialidade da existência estética. Isso, claro, não se trata da negação da espiritualidade, mas um olhar crítico ao que Chögyam Trungpa chamou de "materialismo espiritual”.


Talvez toda minha crise existencial que culminou no reencontro poético seja uma espécie de negação da imago-dei judaico-cristã e todos os desdobramentos que dela decorrem até chegar a um reencontro da poesia como forma de expressão e catarse dessa minha busca pelo meu centro, pela minha individuação, pelo meu si-mesmo que luta para ser poesia nesse mar de palavras.


Os anos de 2020 e 2021 foram marcados por uma prolífera sangria estética que rendeu seis livros publicados e vinte cadernos poéticos somando mais de 2000 poemas. A poesia foi a centelha que não extinguiu aquele ser recém-nascido que ia ganhando força entre sensações regadas por uma profusão de pensamentos apalavrados, ora confusos, ora difusos, mas sempre retratando instantes desse reencontro entre o animal com sua dimensão existencial que é a síntese de uma poética imanente.


A travessia existencial não tem início e muito menos se encerra na pandemia, mas nela se torna aguda depois de um período crônico em que os males da minha psique. por serem opacos, foram negligenciados e criaram um talho poético que permitem-me elaborar as formulações que defenderei no presente ensaio.


( texto em construção )





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