Três poemas de Pedro Rego

Atualizado: Fev 17

Poemas filosóficos*


Amor platônico


O amor, para Platão,

é o desejo da posse eterna

de alguma coisa bela.

Pode ser varão ou donzela

arte, ciência, constituição.

No fundo tanto faz.

É sempre a beleza que atrai

e ao coração apraz.

E desse fenômeno

de que somos presa

f ele tinha a certeza

de ser esta a explicação:

todo mundo está grávido

no corpo ou na alma

e num momento dado

perde-se a calma

e vêm as dores do parto.

A única saída

para a criatura aflita

é a criação

e esta não dispensa

a beleza, sua presença.

Há, além disso,

outro princípio ativo:

quem cria compartilha

da natureza imortal

e não morrer

veja

geral deseja.

Mas há quem conteste e diga

que esse amor platônico

é tirânico, egoísta

e muito pouco romântico.

A coisa amada é só uma pedra

no rio, um degrau

na escada

devendo ser descartada

logo depois de usada.

Amor mesmo, de verdade,

dizem

o que Aristóteles disse da amizade:

o desejo pelo bem do outro

por si mesmo

não pelo próprio conforto.

O mistério

do amor aristotélico

do amor-amizade

é o velho mistério

da boa vontade.

Eu dizia isso

para a namorada

que perguntava

insistente

'Por que você me ama?'

pra que ela entendesse

que a coisa é complicada

e não vai ser solucionada

assim, na cama.


Medo da morte


Eu tenho medo da morte

desde sempre,

desde que me dou por gente.

Não é medo da dor

nem da má sorte,

é diferente,

é um medo assim meio indecente

do fim

de mim.

Mas medo talvez não seja exatamente

o termo.

É uma vertigem

quente,

é um sentir presente

meu eu futuro

ausente,

é sentir que o buraco é sem fundo

e que a eternidade é real

feito esta pedra

feito este muro de cal

feito este murro.

E então a vida em mim

grita

e a noite em mim

cresce

e nenhuma estrela aparece

e nenhuma brisa se agita

e tudo de mais sólido derrete

e só a eternidade resplandece

infinitamente

inerte.

Essa queda, essa descida

é a experiência fundamental

da minha vida.

E quando eu estou assim perdido

sentindo que não mais existo

eu me acalmo fingindo

que creio em Cristo.

Eu sei, é ridículo,

esse homem tremendo sozinho

no breu.

Mas será que sou só eu?



O pessimismo


Um filósofo alemão

que todo mundo conhece

dizia que a vida é ruim

e vai ficando cada vez pior

até que o pior de tudo acontece.

A máxima é exemplar pela concisão.

Mas é verdade? Eis a questão !

Porque repare: a vida

não é escolhida

após cuidadosa deliberação.

Nós vivemos talvez

mais por essa coisa inusitada,

o medo do Nada,

do que por amor legítimo

à Criação.

Desse modo,

a despeito da nossa inclinação,

pode muito bem ser

que esse nosso esquema

não valha realmente a pena

e seja no fundo uma pecha,

a famosa conta

que não fecha.

Mas voltando, então,

à questão aventada,

esse pessimismo do alemão,

eu acho,

é uma coisa exagerada.

É bem verdade que a velhice

não é a melhor idade

como quer a companhia aérea.

A velhice

qualquer pessoa honesta admite

é uma merda.

Apesar disso,

não se assuste, pessoa,

se eu disser (e digo):

a vida é boa.

Foi assim:

o Sol é bom, a chuva é boa, todo ruído é música,

eu li um dia,

na livraria

(era domingo)

e eu fui salvo do pessimismo.

Medite, amigo leitor,

no que encerram

estas palavras rústicas,

o Sol é bom

a chuva é boa

todo ruído é música,

e diga

com sinceridade

se não é verdade que,

contrariando um outro medalhão,

a gente vive é por gosto

não por obrigação.


*extraído de Trivium vol.7 no.1 Rio de Janeiro jan./jun. 2015


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Pedro Rego é poeta e filósofo. Autor da coletânea de poemas Nuga (7Letras).




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