Um corpo no chão

( conto )


Havia um corpo preto no chão. Não era de hoje. Um corpo sujo, fétido e negligenciado. Ninguém notava. Ao menos, preferia não notar. Afinal, nove entre dez corpos no chão são pretos. Isso desde a tal abolição pelo menos.


A Lapa era o lugar da boêmia na Cidade Maravilhosa, mas os corpos no chão denunciavam uma epidemia de falta de gente generosa, preocupada e zelosa. Há dias, aquele corpo, em especial estava ali enrolado em uma coberta velha, rasgada e fedida. Mas, não tinha CPF e nem cidadania.


As pessoas passavam, incomodavam-se com as barrigudinhas vazias, uma lata de cola e alguns restos de pedras queimadas. Mas, e daí, era só mais dessa gente viciada. Ninguém ligava, pois a culpa era do prefeito, do governador, do presidente e do tal Papa que insistia em dar a essa gente aval para ser sofredor.


Há mais ou menos três dias, o burguês da loja da esquina estava incomodado, ou melhor, sentindo-se culpado e, para amenizar seu sofrimento por ser católico, passava e deixava uma quentinha barata e uma garrafa de água do lado do corpo. Ele nem reparou que a quentinha nem era tocada e que a água esquentava. O mau cheiro do corpo não deixava ele se concentrar nesse detalhe tão bobo.


A beata da Igreja de Sant'Ana há dias deixava ali algumas moedinhas num boné velho e úmido de sereno. Era o preço de sua culpa. Era religiosa nessa sua esmola.


Mas, apesar de tanta generosidade, o velho preto, provavelmente doente, seguia ali, indolente e preguiçoso. Ainda assim, digno de pena dos passantes daquela rua pequena com nome de jornalista famoso, de barão da comunicação.


A varrição da calçada acontecia, mas nem o gari queria perturbar a bela adormecida que vagabundava há dias naquela calçada onde tanta gente transitava e quando preciso desviava daquele corpo negro caído no chão.


"Deve estar drogado." − disse a beata.


"Esta sujando o bairro." − ponderou o burguês


Restou a gari, por ser o mais subalterno, a missão de acordar o vagabundo de seu sono tão profundo.


"Ei! Senhor, acorda." − chama respeitoso enquanto cutucava o corpo que não respondia. Devia está muito doido. Pois nem a comida queria. Tudo ali fedia.


O corpo não acordava apesar do gari que insistia. Foi preciso chamar o rabecão porque o corpo não queria mais sair do chão


A indiferença ardia tanto que foi preciso três dias para que alguém percebesse que o que fedia mesmo era a hipocrisia daquela gente que parece que não sente dor pelo corpo preto caído no chão.


Os verdadeiros indigentes seguiram a vida esperando outro corpo preto caído chamar a atenção.



(Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

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