Um ruído que se apagou

Atualizado: Mar 21

por Giovani Miguez


O velho no semáforo, cambaleante, era um sujeito assíduo. Segurando uma bengala em uma das mãos e as moedinhas que recolhia na outra ele passava todas as manhãs ali, persistente, entre os carros e com um sorriso estampado no rosto pronto para agradecer a qualquer um que depositasse em sua mão qualquer que fosse a quantia.



“Se um dia esse velho não estiver mais aqui, sentirei saudades”, pensava enquanto pagava-lhe meu pedágio. Mal sabia eu que esse dia chegaria mais cedo que o esperado. No dia seguinte, ele não estava mais ali, exercendo seu ofício. Como era preto e morador de rua, poucos sentirão sua falta. Os que sentirão, sequer demonstrarão. Assim é a vida. Os invisíveis jamais serão lembrados pelos que ainda lutam por alguma visibilidade.


Gente como o velho do semáforo são ruídos na minha comunicação com o mundo. Lembram-me todos os dias da minha fragilidade enquanto ser humano e da nossa fragilidade enquanto sociedade. Eu via aquele homem nos últimos três anos com mais frequência com que vejo meus pais. Olho nos olhos dele e entrego-lhe algumas moedas quase todos os dias e, ainda assim, não sabia seu nome. Ele era apenas um ruído na minha rotina de homem branco de classe média; como tantos outros, um borrão na minha estética existencial quase perfeita.


O velho sem nome não morreu, pois, como ruído, foi apenas silenciado, abafado e substituído por outro ruído existencial. Mas, por algum motivo, sentei hoje diante do meu computador e resolvi transformá-lo, o velho, em algo para além do ruído, transformá-lo em verbo, imortalizá-lo em palavras que, se não servirão como homenagem, servirão como memória para que eu não me esqueça daquele velho ruído que de tanto ser ignorado se apagou.


Rio, 18 de março de 2021.





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